A aposta que Bernardinho perdeu
Enviado em 25 de Agosto de 2008
Publicado por José Emanuel Gomes de Mattos | Enviar por e-mail
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O Brasil jogou pela janela o título de bicampeão olímpico de vôlei masculino. E o culpado tem nome e sobrenome respeitável: Bernardo Rocha Rezende. Tudo começou com o corte de Ricardinho, na véspera do início dos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, no final de junho de 2007. Alguns dias antes, Ricardinho havia sido eleito o melhor jogador da Liga Mundial, quando o Brasil obteve o heptacampeonato. As razões nunca foram devidamente explicadas, ou aceitas por quem acompanhou de perto o bate-boca que se seguiu à atitude unilateral do treinador.
Bernardinho: teimoso até o fim
A propósito desta decisão intempestiva de Bernardinho, o levantador declarou:
- O grupo não está a favor disso, não está entendendo o que aconteceu. O que eu mais quero, de coração, é que eles se recomponham a partir de amanhã.
Para pior dos males, o convocado para a vaga foi o filho do técnico, Bruninho. O Brasil conquistou o Pan com o reserva Marcelinho, cuja criatividade é zero. E essa limitação custou caro à seleção: ficamos fora do pódio na última Liga Mundial, disputada no Rio.
Ricardinho: um corte que decidiu
Ainda seria possível reverter a situação, se houvesse entendimento, a fim de que Ricardinho e o técnico entrassem em acordo, mas Bernardo foi irredutível: fechou o grupo e para não ser acusado de nepotismo, deixou o filho na reserva.
O resultado final é conhecido. Embora tenha disputado uma olimpíada acima da expectativa, na batalha pelo ouro, contra os norte-americanos, a seleção foi impotente para fazer frente a um time que teve pelo menos três estrelas de primeira grandeza: Clayton Stanley (responsável pelos 6x0 iniciais no segundo set, quando seu saque potente
Ball (de braços erguidos), fez a diferença
fulminou nossa recepção), Priddy e, principalmente, o espetacular levantador Ball, extraordinário na distribuição de passes, cuja criatividade só se compara a de Ricardinho, que liquidou as chances de reação brasileira nos três sets finais.
Enquanto Ball esbanjava categoria, o limitado Marcelo parecia o samba de uma nota só, sem nenhuma criatividade, a ponto de ter dado 15 passes para André Nascimento que desperdiçou 14 deles, diante da marcação implacável dos EUA.
É impossível deixar de reconhecer os méritos dos Estados Unidos, que teve a humildade de estudar o Brasil ao máximo, tanto que antes da vitória na final, em Pequim, havia nos eliminado na Liga Mundial por contundentes 3 x 0.
Depois do Brasil ganhar o primeiro set por 25 x 20, perdemos os três seguintes: 25x21, 25 x 22 e 25 x 23. Foi duro admitir - e pela entrevista que deu ao final, Bernardo parece não ter entendido que, ao cortar Ricardinho e não ter dado a chance a seu filho Bruninho de atuar como titular - em vez do previsível Marcelinho - desperdiçou a nossa chance de obter a medalha de ouro. Quem acompanha esse blog, viu que antecipei o risco no post "Vôlei feminino, ouro olímpico à vista", em que escrevi: "… Ao contrário do vôlei masculino, que não possui um levantador à altura de Ricardinho (o que poderá ser fatal)."
Bruninho: prejudicado pelo pai
Podia ter sido diferente se Bernardo fosse corajoso o suficiente para escalar seu filho, que foi considerado o melhor levantador do último campeonato brasileiro e mostrou, nas poucas chances que teve, que era muito superior ao titular. Mas Bernardo não foi pai, foi padrasto. Escondeu o craque que, anotem, será titular absoluto daqui em diante. Mas com Bernardo fora do comando. Até porque, se há justiça, é preciso reconhecer que ele perdeu sua maior aposta.
Não há vencedores nesse episódio. Perdeu Bernardinho, por sua teimosia; perdeu Ricardinho por seu temperamento; e perdemos a chance de ouro. Pior para os gaúchos: vimos Gustavo se despedir da seleção, cujo ciclo de tantos títulos conquistados chegou ao fim, conforme os próprios jogadores reconhecem.
Gustavo teve uma despedida melancólica
Resumo: a intransigência entre dois gênios liquidou com a chance de o Brasil entrar para a história com o inédito bicampeonato olímpico. Ao final desse triste episódio, Bernardinho chorou. Todos nós também. Esta foi a pior punição aos pecados capitais de dois sujeitos temperamentais. E eu pergunto: isso era necessário?
A medalha de prata: ouro desperdiçado
Emanuel, há vários motivos para não termos tido aquele desempenho todo. Mas um é claro: não dá para vivermos fazendo de um limão uma limonada (cruzes, que jargão mais velho). Acontece que outros países cresceram e foram melhores. Nosso vôlei masculino jogou muito bem, mas teve os EUA jogando muito mais. Os mesmos EUA
complementado o comentário: os mesmos EUA armagaram um fiasco no atletismo. Sinceramente, acho que o resultado foi bom. Ficamos à frente de países como República Tcheca, Nova Zelândia, Cuba, Dinamarca, Argentina (34º), Suíça, México, Bulgária, Finlândia, Bélgica, Portugal, Suécia, Grécia, Áustria, Irlanda, Chile, Israel, Venezuela. Fomos os primeiros entre os paíeses da América do Sul e ficamos atrás apenas dos EUA, Jamaica e Canada entre os da América Latina.
Caro Breno: com todo o respeito, permito-me discordar. Um país de 180 milhões de habitantes ter conquistado apenas três medalhas de ouro é ridículo. Ainda mais se a gente considerar que duas delas até foram surpresas: Cesar Cielo na natação e Maureen Maggi no salto em distância. Imagine o vexame em que estivemos perto: bastaria que ambos chegassem em segundo, por exemplo, e que o vôlei feminino não quebrasse o tabu e teríamos terminado ao lado dos piores. Outro dado que acabei de ler, que é acachapante: cada medalha que o Brasil trouxe de Pequim custou R$ 56 milhões ao governo federal. Não há nada que justifique tão pouco retorno para tamanho investimento. Algo está muito errado na estrutura esportiva nacional. A lógica é que o Brasil estivesse em condições de figurar entre os dez ou 15 melhores, no mínimo. Falta, claro, massificar o esporte, mas se não houver iniciativa firme e decidida do governo, qualquer governo, seguiremos dando vexame a cada olimpíada.
Forte abraço, irmão.
O que falta é termos política de Estado para o esporte. E isso inclui estudo e prática do esporte nas escolas até o ensino médio. Cabe ao governo destinar recursos para o incentivo às crianças. Aos nossos não-patriotas empresários (privados!) abrirem a mão e patrocinarem equipes e campeonatos nacionais. A única coisa que não aceito e acho vergonhoso é não termos medalha de ouro no futebol masculino. É obrigação! As mulheres foram heróicas em chegar até a final.
Abração.
Meu grande amigo Emanuel, seu texto está brilhante, como sempre. Medalha, não de ouro para ele, de diamante. Como grande jornalista, cabeça mil, você sentiu antes o que poderia acontecer: Ricardinho fazer falta e o Brasil não conseguir a terceira medalha de ouro. Alertado por internautas, enquanto comentava jogos pela Terra-Tv, também me indaguei se Bernardinho ganharia ou perderia o que se dava como uma grande aposta. Mas, ainda me pergunto se com Ricardinho o ouro estaria garantido. Nunca saberemos. Saberemos? Felipão, que o amigo conhece bem, fez aposta parecida - e eu o aplaudi - em 2002, quando os coleguinhas do Rio queriam Romário na seleção e ele disse, com toda clareza, “não”. Se tivesse levado e ganho, Romário teria sido o vencedor. Se o tivesse levado e perdido, ele seria o perdedor - porque demorou a convocar Romário. Se tivesse perdido sem Romário, também seria o perdedor. Só lhe restava uma aposta, não levar Romário e ganhar. Apostou e ganhou. Nunca saberemos se o Brasil ganharia ou não com Romário. Felipão perderia sempre, se escolhe uma das três outras hipóteses. Para o amigo não dizer que não falei de flores, li que algum jogador americano teria dito que os Estados Unidos não teriam vencido o Brasil com Ricardinho na quadra. Não me lembro agora onde. Grande abraço, meu caro…
Caro amigo Zé Maria: tenho convicção de que o Brasil teria ganho dos Estados Unidos se o Ricardinho tivesse sido nosso levantador. O raciocínio é simples: perdemos por pequena margem na final, por culpa da falta de criatividade do levantador, coisa que o Ricardinho tem de sobra, tanto que foi escolhido o melhor jogador (não só o levantador) de toda a fase final da Liga Mundial. O Marcelo era um bom reserva, um amigão, que estava ali por não fazer sombra ao Ricardinho, titular absoluto. Quando houve a ruptura entre o técnico e o jogador (foi por causa da divisão dos prêmios, isso é que me deixa mais estupefato - pesou a questão financeira antes da técnica) Bernardo ficou na obrigação de escalar Marcelo e mantê-lo, a fim de provar que sua convocação estava certa, tanto que seu filho Bruninho, que é muito melhor, mal foi aproveitado.
Triste verdade, amigo Zé, mas tanto Bernardo como Ricardinho têm culpa pelo nosso fracasso diante dos EUA que, ao contrário, tinham um levantador de alta técnica e variação de jogadas: Ball.
Simples assim, amigo Zé. O pior é que tão cedo não teremos outra chance igual a essa. Por isso ambos merecem a medalha de lata.
Forte abraço.
É, amigão, como sempre firme no que diz. E a questão do prêmio que, pelo que li, seria de R$4.7 milhões, para dividir, se ganhassem o ouro, e nada por qualquer outra medalha. Ficará mesmo assim? Grande abraço