Como explicar esse Mundial, Doris?
Enviado em 20 de Julho de 2008
Publicado por José Emanuel Gomes de Mattos | Enviar por e-mail
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Minha amiga Doris Goettems é daquelas leitoras atentas, que não deixa passar nada. Dia 23 de março, quando Felipe Massa fez uma besteira na segunda prova do ano, escrevi o post que intitulei “Não vai ser desta vez, de novo”, em que chutei o balde do piloto de Botucatu. Depois disso, a Doris, que é fã do Massa, foi flanar pelos museus da Europa, em pleno gozo da recém adquirida condição de jubilada. Na volta, deu de cara com outro post meu, logo depois do GP da França, intitulado “Felipe Massa, com pinta de campeão”.
Prontamente ela mandou bala: “Me explica só uma coisa: porque os jornalistas esportivos fazem prognósticos de-fi-ni-ti-vos, sempre que acontece alguma coisa. Como tudo na vida as coisas andam, mudam e por isso a gente aprende logo cedo a nunca dizer nunca. Mas os jornalistas adoram isso. Como funciona? É só curiosidade, pois fiquei tristinha quando disseste que ele estava fora do campeonato, torço tanto por ele”. Respondi que justificaria logo que tivesse uma chance, mas o GP da Inglaterra foi tão maluco que até o pato Rubens Barrichello conquistou um lugar no pódio, terceiro naquela pista molhada.
Mas hoje, depois do GP da Alemanha, justifico a mudança de opinião pela falta de apetite do atual campeão do mundo, Kimi Raikonnen. A lógica indicava que um piloto da Ferrari conquistaria o título – embora no post "O dia em que Ayrton Senna viu Deus", apostei em Lewis Hamilton porque, livre da sombra de Alonso, ele tem apoio integral da McLaren.
Na ocasião, projetei que Hamilton seria beneficiado por Raikonnen e Massa dividirem as vitórias na Ferrari. O que tem se confirmado, tanto que o inglês já ganhou quatro, Massa três e Raikonnen duas vezes. Mesmo assim, Lewis não conseguiu tirar grande vantagem sobre Massa: 58 x 54; enquanto Raikonnen vem em terceiro, com 51 e o polonês Robert Kubika, da BMW, soma 48 pontos.
Na prova de hoje, Nelsinho Piquet cruzou a linha de chegada em segundo – algo espantoso, pois ele largou em 17ª lugar de tanque cheio, com a estratégia de fazer só uma parada, a fim de herdar algumas posições. Pra sua sorte, o único acidente que obrigou a entrada do safety car ocorreu pouco depois de seu reabastecimento. Foi muita sorte.
Graças a esse detalhe, chegou ao pódio com Massa e matou a saudade da última vez em que dois brasileiros realizaram essa façanha: no GP da Bélgica, em 1991, com Senna em primeiro e o pai Piquet em terceiro. Nelsinho mostrou ter estrela, pois a Renault lhe fez uma festa incrível e ofuscou o bimundial Fernando Alonso.
Faltam ainda oito provas: quatro em circuitos travados (Hungria, Valência, Singapura e China), que favorecem a McLaren de Lewis Hamilton. E quatro à feição dos potentes motores Ferrari (Bélgica, Itália, Japão e Brasil). Como a Hungria e Valência virão em seqüência, Lewis tem tudo para abrir vantagem, pois o chassi da McLaren está melhor ajustado a estas pistas.
Mas como Felipe Massa reclamou do carro, o sinal vermelho acendeu em Maranello. No GP da Inglaterra, o presidente da Ferrari, Luca de Montezemolo, proibiu a equipe de errar novamente. E hoje, a presença de Michael Schumacher no boxe foi indício de que haverá um trabalho duro a fim de botar o cavalinho rampante na ponta dos cascos.
Pra não me alongar, Doris, hoje a McLaren tem o melhor conjunto piloto/carro, mas a Ferrari deverá recuperar a diferença. E, pelos pódios de Barrichello e Piquet, com sorte o título pode cair no colo do brasileiro da Ferrari.
Agora, cá entre nós, Doris, há tempos não se via um Mundial tão espetacular.
Emanuel, pois as previsões não se concretizam diante de um mundial nunca antes visto. Aí é que está a questão: nesse ano, o talento do piloto e a eficiência das equipes são fundamentais. Foi tirar o controle de tração, para o piloto saber quando frear e quando acelerar antes, durante e na saída de uma curva. Lembra que o Senna e o Schumacher ganhavam preciosos décimos de segundos ao fazerem as curvas bombando no acelerador (o Piquet entrava mais de lado, quase derrapando o carro) no estilo de pilotagem de kart? Então, nesse ano, tem que ser piloto mais sensível para andar melhor. Kimi não é assim. Hamilton tem a seu favor um excelente carro ( o melhor da temporada) e uma equipe competente. Quando ele não faz uma cagadinha, ele se dá bem. E, olha, é só ver os tipos de erros que ele comete: são infantis. O Massa tem errado por ultrapassar os seus limites e os do carro. Mas está estabelecendo novos parâmetros para sua pilotagem. Ainda acredito que ele tem tudo para ganhar seu primeiro título.
Caro Breno: concordo plenamente contigo. Botei minhas fichas no Lewis Hamilton antes da primeira prova (puro palpite, baseado no fato de que ele seria piloto número 1 da McLaren enquanto a Ferrari empurraria a decisão com a barriga). Duas provas depois, e duas péssimas corridas de Massa, concluí que o paulistinha não ia se dar bem sem controle de tração. Aos poucos, porém, ele foi se acertando - talvez por ter corrido mais riscos do que o acomodado Raikonnen (que às vezes parece correr por obrigação). Se tivesse que botar minhas fichas em alguém, chutaria de novo no inglês, porque ele é de fato um daqueles fenômenos que surgem de tempos em tempos. Suas duas últimas provas foram realmente de tirar o chapéu. Mas sempre sobra o desejo de ver um brasileiro novamente campeão - e aínda mais numa Ferrari, o que seria inédito pra gente, certo? Enfim, tá valendo demais esse mundial.
E ainda aguardo a abalizada opinião da Doris a respeito, se é que ela não tá em alguma ilha grega, no que faz muito bem.
Forte abraço, irmão.
Oi, Emanuel
Depois de várias flanadas pelo mundo, voltei e fiquei com problemas no meu acesso por umas duas semanas. Finalmente leio o artigo em que explicas a tua opinião inicial, a qual concordo que tem sua lógica. Porém, e sempre tem um, acho que a coisa é mais ou menos como eu disse, ou seja: tudo pode acontecer, sempre. Nada é garantido. Também sou fã do Hamilton, acho que ele e Massa são gênios. Sena também era e o Schumacker também, mas esse é tão nojento que não dá nem pra olhar. Enfim, meu caro, segue a vida, segue o campeonato. Pena que o Felipe teve aquele problema no último GP. Fazer o quê ? Desculpe não ter te respondido antes, obrigada pelo carinho. Continuo tua fã também, dentro do meu coração agora é só tu e o Massa. Um beijão.