Obama muçulmano: sátira ou difamação?
Enviado em 14 de Julho de 2008
Publicado por José Emanuel Gomes de Mattos
Obama muçulmano e a mulher terrorista: humor grosseiro
A baixaria que você vê acima foi publicada na revista The New Yorker desta semana. Detalhes: o retrato de Bin Laden e a bandeira dos EUA queimada.
Reproduzo, a seguir, trechos da matéria publicada no site BBC Brasil.com.
"A campanha do candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, criticou à ilustração de capa da revista New Yorker desta semana, que mostra o político vestido como muçulmano e sua mulher, como "terrorista".
Na charge Obama está de sandálias, com uma roupa tradicional e um turbante, vestes semelhantes às usadas pelo senador durante visita ao Quênia, em 2006, em fotos que causaram polêmica ao serem divulgadas no início do ano, durante a disputa das primárias eleitorais.
Na ilustração, a mulher do político, Michelle Obama, aparece saudando o senador com o punho cerrado. Ela exibe um cabelo black power, usa botas, roupas camufladas e empunha um rifle automático. Ao fundo, uma bandeira americana em chamas na lareira e um retrato de Osama Bin Laden.
O cartum tinha o objetivo de satirizar a maneira como os críticos de direita vêm tentando retratar Obama e a política de medo que eles estariam colocando em prática, com direito a campanhas anônimas para tentar disseminar o boato de que o senador é muçulmano, apesar de ele ser cristão.
A campanha de Obama disse estar ciente do tom crítico e satírico que a revista tentou usar, mas afirmou acreditar que a publicação errou no tom.
"Talvez a New Yorker tenha julgado, como um de seus funcionários nos explicou, que a capa deles seja uma sátira ao retrato ridículo que alguns críticos de direita tentaram criar para o senador Obama, mas a maior parte dos leitores irá julgar a capa de mau gosto e ofensiva. E nós concordamos", afirmou o porta-voz da campanha de Obama, Bill Burton.
O cartum ilustra um artigo intitulado A Política do Medo. De acordo com a revista, a ilustração retrata "uma série de imagens absurdas ligadas ao casal Obama e mostra as óbvias distorções que elas representam".
O comunicado divulgado pela publicação acrescenta: "A bandeira em chamas, as roupas islâmicas e nacionalistas radicais, a saudação com os punhos, o retrato na parede, todas são referências a diferentes ataques (sofridos por Obama)."
"Sátira faz parte do que fazemos, e a intenção é dar luz a estes temas, colocar um espelho em frente ao preconceito, ao odioso, ao absurdo. E este é o espírito da capa", completa o texto.
A New Yorker é uma das mais conceituadas publicações jornalísticas americanas e sua orientação política é predominantemente de centro-esquerda.
Algumas das imagens mostradas na ilustração de fato foram exploradas, por vezes até de formas risíveis, pela mídia conservadora americana.
Comentaristas da rede de TV Fox News chegaram a indagar se o cumprimento feito por Obama a sua mulher Michelle, durante um comício, no qual os dois tocaram seus punhos cerrados, poderia ser uma "saudação terrorista".
Pesquisa divulgada há poucos meses pelo instituto de pesquisas Pew Research Center apontou que 10% dos americanos acreditam que Obama é muçulmano.
O senador é filho de uma americana agnóstica e de um queniano islâmico, que renunciou à sua fé e se tornou ateu. Mas Obama e sua família são cristãos praticantes de longa data."
Finalizo com um questionamento oportuno: trata-se de sátira ou difamação?
Aguardo ansioso os comentários de dois grandes chargistas: Fraga e Tacho.
Emanuel,
a New Yorker sempre foi a revista dos artistas e intelectuais de esquerda americanos. Eles colocaram na charge a visão exagerada e ridícula que a direita e sua mídia quer passar para os eleitores americanos. É engraçada e inteligente.
O pessoal do Obama tem razão para ficar preocupado. A charge é inteligente para o público da New Yorker… Eu não sei se o público médio americano vai entender assim…
O nosso Verissimo diz que o humor é uma faca de três gumes. E eu digo que a publicação tem um retrospecto editorial impecável, é das mais liberais dos EUA. Nem tem que se explicar ao seu público, super elitizado. A polêmica só existe ou pra quem não conhece a revista ou pra quem se deixar levar exclusivamente pela capa na banca (será, desde já, campeã de vendas). A ironia tem disso: quando é demais, gira 180 graus e em vez de atingir o leitor pela esquerda, o alcança pelo lado oposto. Quanto ao Obama, deve estar rindo à toa.
Caros amigos Tacho e Fraga:
Nada como ter dois genias amigos que não apenas têm ética no exercício da profissão, como sabem tudo sobre essa difícil arte da charge e da caricatura.
Forte abraço, meus gurus.
Emanuel,
neste link http://cartoonbox.slate.com/index/?image=4t tem uma charge publicada nos EUA bem interessante sobre este assunto