Maristela Bairros : justiça à José Antônio Daudt
Enviado em 4 de Junho de 2008
Publicado por José Emanuel Gomes de Mattos | Enviar por e-mail
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A grande jornalista e amiga de todas as horas, Maristela Bairros *, que escreve no Blog ‘Clínica da Palavra’, publicou dia 8 de fevereiro, no Coletiva.net, o texto abaixo em sua coluna semanal.
Lembrou do assassinato, em 4 de junho de 1988, do deputado estadual e comunicador José Antônio Daut. A partir de hoje, a pena prescreverá.
Deputado e comunicador, Daudt foi assassinado aos 48 anos
Daudt: 20 anos de ausência
Este tem sido um verão de muita mexida em livros e material impresso que atulha minha casa. Esta semana, desencavei do fundo de um armário a minha coleção de revistas Imprensa e deixei à vista, para ir lendo as que nunca foram lidas e reler as que já o foram. Ontem à noite, por acaso, deixei ao lado da cama a edição número 11, ano 1, que custava 250 cruzados, e que foi publicada em julho de 1988. Na página 32, me deparo com uma foto de José Antônio Daudt, com seu tradicional blusão de lã cashemire de gola alta com que tantas vezes o vi e a legenda: Daudt, assassinado: teses sem comprovação. A matéria intitulada "Um Culpado a Qualquer Custo" tem por linha de apoio "Sensacionalismo e confusão marcam a cobertura da imprensa gaúcha sobre o assasinato de um deputado".
Revi todo aquele domingo em que acordei com as rádios enlouquecidas tentando informar e mais que isso, compreender, a morte do jornalista que era, então, deputado. O que se seguiu, todo mundo sabe: a acusação de Antônio Dexheimer, a devassa na vida pessoal de Daudt até as últimas baixezas, sem piedade, o julgamento coberto integralmente pela mídia e o até hoje mistério: 20 anos depois, a se completarem no dia 5 de junho próximo, não existe um culpado pagando pelo fuzilamento do jornalista à frente de seu apartamento na Quintino Bocaiúva.
Trabalhei com Daudt em começo de vida profissional. Eu havia feito um frila para a Zero Hora na cobertura das Olimpíadas do Exército, a convite do Telmo Zanini. Ninguém queria pegar o trabalho, já que ele se associava ao regime militar. Eu e Eva Caparelli, loucas por um estágio, aceitamos. A mim, coube acompanhar as provas de tênis e hipismo. Coi Lopes de Almeida era o editor de Esportes, então, e – coitado - precisava de muita paciência (que ele quase não tinha!) para esperar meus textos catados na máquina de escrever, em meio a minha inexperiência e ao nervosismo de debutante.
Encerradas as Olimpíadas, Luiz Figueredo me acolheu, naquele aquário em que funcionava, no terceiro piso do prédio da Zero Hora, parte da Rádio Gaúcha. Como não havia vaga para redatora, o gordo Fig me encaixou como assistente de produção do Sala de Redação, então um programa de debates jornalísticos que o Cândido Norberto apresentava e que tinha apenas um dos espaços dedicados ao esporte. Daudt me acolheu com aqueje seu jeitão entre carinhoso, debochado e impulsivo. Ainda o vejo, com suas calças boca de sino de veludo cotelê, caminhando rápido, sempre com um sapato social de qualidade, camisas bem passadas, um casaco de couro, o cabelo ondulado, que caía sobre a testa, o olho azul muitas vezes avermelhado pelas noitadas num bar do Hélio Wolfrid que ficava na João Pessoa, o Ressaca.
Chegava sempre cedo, olhava o material que eu havia selecionado, pegava tudo, botava embaixo do braço e ia para o estúdio. Por ter um gênio explosivo que depois ficaria bem conhecido, em seu programa na então TV Difusora, em que batia na mesa com a palma da mão para chamar atenção para algum assunto, brigava bastante com Cândido. Um dia, ele ganhou seu próprio programa, o Tribuna Gaúcha, das oito às nove da manhã, na rádio. E me levou junto, como produtora, com o que fiquei acumulando a tarefa do Sala de Redação e a do novo programa. Até que Daudt exigiu que eu ficasse apenas com o Tribuna.
Sempre chegou uma hora antes, banho tomado, perfumado, fumando seu cigarrinho, às vezes não querendo conversa, outras brincalhão. Gostava de ficar sozinho, sentado diante da mesa com recortes de jornal, pautas sobre entrevistas, gravações, entradas ao vivo dos repórteres. Volta e meia, passava o braço sobre meus ombros e dizia, antes de entrar no ar, “vamos lá, guriazinha”. E eu, que cedo aprendi a respeitar e, quantas vezes, temer meus superiores, o seguia, feliz da vida, por ter ser produtora de um cara que fazia tanto sucesso como jornalista combativo e, também, com o mulherio.
Daudt, como se sabe, tinha muitas fãs. Uma delas ia à rádio todas as semanas, vinha de Canoas, era uma moça simples. E lhe trazia presentes, como uma alfomada de crochê em que ela derramou litros de perfume e ele, num daqueles gestos de supremo desprezo e deboche, jogou fora.
Um dia, deixei no quadro de avisos um desabafo sobre uma injustiça que haviam feito com meu pai, na sua sapataria, e o tom deveria ter sido muito dramático, porque Daudt telefonou para a casa dos meus pais para saber como eu estava. Tempos depois, no meu aniversário, apareceu, de surpresa, na minha casa, junto com Ubirajara Valdez, que era nosso repórter, recém chegado de São Paulo. E ficou muito chateado porque as amigas que estavam na minha festinha caseira haviam se reunido numa outra sala, sem conversar com ele.
Fiquei no programa mais de um ano, até que me enchi da rotina estafante de receber gente que ia reclamar desde a virgindade perdida da filha até uma casinha para morar, e resolvi sair. Quando avisei da minha decisão, Daudt radicalizou: me deu a chave de seu fuscão e me botou a dirigir até, primeiro, uma casa de acolhida a deficientes, que ficava na Getúlio Vargas. Depois, para completar a aula, me mandou seguir para a Restinga Velha, para ver a denúncia de que um casal de cegos saía para mendigar e deixava duas crianças acorrentadas ao barraco. Chorei muito, quando cheguei em casa. Mas desisti do que Daudt dizia ser minha missão. Não suportava mais.
Nossos caminhos se separaram ali. Nunca mais o vi pessoalmente. Até que ele virou notícia da forma mais trágica possível. Infelizmente, ele, assim como Bira, Figueredo, Coi, se foi. Sem, ao menos, ser vingado pela vida, que lhe negou até a punição do criminoso que o matou de forma bárbara, que ele não merecia.
* Maristela Bairros é jornalista, formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Já atuou como redatora, repórter, editora e crítica de teatro nos principais diários de Porto Alegre, colaboradora de revistas do Centro do País e produtora e apresentadora nas rádios Gaúcha, Guaíba AM, Guaíba FM e Rádio da Universidade. Assessorou a imprensa da Secretaria de Estado da Cultura e da Fundação Cultural Piratini. Autora de dois livros: Paris para Quem Não Fala Francês e Chutando o Balde, o Livro dos Desaforos, da Artes & Ofícios.
Para fins de registro: no dia seguinte à publicação deste artigo, postei no Coletiva.net o comentário que reproduzo abaixo:
De arrepiar
“Querida Maristela, tento reproduzir a emoção sentida depois de ter lido esse teu comovente depoimento sobre a vida e a morte de José Antônio Daudt. Ainda lembro como se fosse hoje. O editor-chefe da ZH, Carlos Fehlberg, me telefona, no final da manhã de domingo e - como eu havia retornado à Zero Hora na condição de ‘curinga’ meses antes - comunica que precisava de mim para editar a Polícia. O titular, Wanderley Soares, se afastara a fim de cuidar da mulher, que sofria de câncer. O subeditor, Tibério Vargas Ramos, estava de férias ou de folga, não lembro. Botei gravata, fui até a Assembléia, com aquele aglomerado de gente sob impacto, velei Daudt e me dirigi à redação. Acabei editando a Polícia em todo esse período. Graças a isso, fui dos primeiros a ter acesso ao primeiro depoimento do principal suspeito. Era consenso de que Daudt havia sido morto pelo companheiro de bancada, Antônio Dexheimer. Todos os indícios - e a versão bizarra de que saíra na noite daquele sábado, com frio de 5 graus, percorrera o trajeto da Lucas de Oliveira até depois da PUC para olhar um terreno que havia adquirido, retornando 40 minutos depois - apontavam para ele. Até que veio à tona o fato de que Daudt era homossexual. O rapaz que ele apresentava como seu filho, era na verdade alguém com quem tinha um relacionamento amoroso. Daí em diante, a sociedade riograndense assistiu passivamente à desmoralização póstuma de um profissional brilhante, enquanto o principal suspeito acabou inocentado, após um histórico jullgamento. Dói saber o quanto o ser humano é capaz de fazer e aceitar por puro preconceito. Mas fica a certeza de que enquanto houver pessoas corretas como tu, Maristela, a memória do grande comunicador que foi José Antônio Daudt será lembrada com o respeito que merece. ”
Emanuel Mattos - Porto Alegre/RS/Brasil
Emanuel. Terminei de ler tua homenagem com um nó na garganta nesta manhã de garoa fina, triste como convém a esta data. Acho que meu texto tem algumas incorreções sobre dia da semana e data, porque não me preocupei com estas coisas e mais com a minha memória afetiva quando escrevi para o Coletiva. De todo modo, permanece e sempre permanecerá em mim este vácuo. Passo, diariamente, diante do edifício em que Daudt foi abatido como um animal pestilento. Eu e meus dois viralatas. Não tem como ficar diante daquele edifício e não lembrar. Há pouco, Zero Hora fez um sumário aumentado do caso e deixou uma falha grave, que comuniquei ao Marcelo Rech e não recebi nem resposta, embora meu comentário no site do jornal, com a mesma reclamação, tenha sido publicado: em nenhuma das matérias, em que não falta o tom maledicente sobre a escolha sexual do Daudt e todo seu esforço em manter, com direito legítimo, esta escolha em privado, não há uma referência ao Tribuna Gaúcha. Programa que ele fazia com dedicação, cedo da manhã, ajudou centenas de pessoas, prestou serviço de utilidade pública desde o tempo naqueles começos de dia (ligávamos direto para o Instituto de Meteorologia para obter o boletim ao vivo) e o trânsito (tínhamos repórteres andando pela cidade) e ainda ouvíamos a voz de anônimos, que escolhíamos ao acaso e chamávamos, por telefone, sem aviso prévio. E, pasme: nunca recebemos uma xingada, um não, tamanha era a empatia do Daudt com seu público nesta cidade.
O assassinato de meu colega, chefe e amigo ficará no limbo. Quem o fez, ficou por aí, gozando a vida e da cara de todos, policiais, população, fãs de Daudt, da justiça. E pode morrer sossegado (se ainda não morreu, sabe-se lá) porque mesmo que confesse, nunca será punido pela lei dos homens. Junta-se a tantos milhares de casos iguais sem solução. Que pena! Mas prefiro pensar que Daudt, Coi, Telmo Curcio, Olívio Lamas, Luis Figueiredo e outros profissionais de ponta e gente de caráter que já se foram, devem estar reunidos em algum lugar lendo e ouvindo sobre este “causo” e Daudt, com certeza, dando aquelas gargalhadas conhecidas que dava, deve estar erguendo um brinde ao cara que acabou com ele e dizendo: um dia te pego, filho da puta!
Obrigada, Emanuel, pelo carinho.
Gente
Era uma noite de sábado muito fria. De rachar. Só louco saía de casa. No domingo, após o almoço, fui para a redação de ZH para cobrir plantão na Editoria de Economia. E meu ex, na época repórter do Diário do Sul, correndo para a redação do seu veículo, pq lá ele cobria polícia e geral. Durante muito tempo, convivemos com notícias desencontradas sobre a morte de Daudt, até nós que estavámos dentro da Redação. E, concordo. Durante muito tempo se viu a grande mídia tentar macular a imagem do Daudt por sua opção sexual. Uma sucessão de erros no inquérito policial, provas escondidas, um ótimo advogado de defesa que teve o principal suspeito da morte. E os anos se passaram. Esperava bem mais desta série anunciada por ZH. Mas, apesar da pequeninha discordância sobre o Chico, só poderia esperar isso de vc, Maristela, e do grande Emanuel. E mais, como tu tá bonita nesta foto mulher
abs
Márcia. Várias coisas: primeiro, comemorar 40 anos (ahá, espiei no blog), é o máximo. QUE SAUDADE EU TENHO DOS 40! Outra coisa: eu nunca disse que não amo o Chico. Só tenho minhas implicâncias com ele. Se ele quisesse tentar digamos uma experiência assim, como direi, ah, sei lá, isso é surto mesmo…
Tô palhaçando, depois dos 50 a gente pode! Ter achaques, ficar murrinha, essas coisas, são vantagens da quase velhice.
Bueno. Eu gosto desta foto ali, sim. Cheia de truques - mão no queixo pra esconder a papada, olho alegre (só deus sabe como consegui), sorriso a la monalisa pra evitar marcar muito o bigode chinês.
Pobre do Emanuel - a linda coluna dele usada para meu exércício de futilidade.
Márcia. Tu sabe o quanto te quero, né, supermamma! Nisso, não tem Chico que nos separe.
beijo
maris
E aí, meus queridos Emanuel, Maristela (a foto está mesmo arrasadora) e xará Márcia (Fernanda). Tenho a dizer que, felizmente, há o blog do Emanuel para a gente travar boas discussões. Sobre o Chico, acho que o papo não acabaria nunca, porque ele (Chico) nunca vai acabar, já faz parte da nossa história. E essa nossa conversa - discussão virtual foi muito boa, pois serviu para ficar próxima de pessoas que sempre tive am alta conta, com quem vale a pena argumentar e contra-argumentar. Muitos abraços fraternos da Marcia Camarano