Jakzam Kaiser, editor do ano em Florianópolis
Enviado em 5 de Maio de 2008
Publicado por José Emanuel Gomes de Mattos | Enviar por e-mail
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Seu pai apenas desejava que ele fosse um vencedor.
O gaúcho de Porto Alegre, Jakzam Kaiser recebeu, durante a abertura da VII Feira do Livro de Rua de Florianópolis, dia 30 de abril, a Medalha Mérito Editor Odilon Lunardelli. O prêmio, concedido pela Câmara Catarinense do Livro, reconheceu a contribuição, ao longo de mais de dez anos, do diretor da Editora Letras Brasileiras, ao crescimento cultural de Florianópolis. O prêmio, entregue pela Presidente da Fundação Catarinense de Cultura, Anita Pires, distingue o Editor do Ano.
Editor do Ano: Anita Pires faz a entrega a Jakzam Kaiser
E qual o significado desse prêmio? Responde, em detalhes, o próprio Jakzam:
“Significa o reconhecimento pelo trabalho realizado no último período. De fato, nos últimos dois anos, com ênfase para o período março/2007 a março/2008, em que a Letras Brasileiras deu um salto.
A Editora constituiu um catálogo diversificado, com livros de qualidade editorial reconhecida e apuro gráfico diferenciado. Também lançou produtos que obtiveram sucesso imediato, com destaque especial para o Atlas de Santa Catarina (ao lado).
E, no segmento de maior especialização - o de Turismo -, a Editora produziu uma coleção de 27 revistas, uma para cada estado brasileiro (os 26 estados, mais o Distrito Federal), que inexistia até então.”
Sagitariano de 6 de dezembro de 1961, Jakzam recebeu o título orgulhoso, ao lado de sua mulher Maria Thereza e dos filhos Gabriel e Felipe.
Ele recorda que há pouco mais de um ano estava produzindo quatro livros infantis cujos textos havia selecionado no verão anterior. Os títulos: ‘Menina de três’, ‘O lápis e a menina’, ‘Braboletas e ciuminsetos’ e ‘Se eu fosse’. Todos eram textos de autores estreantes e, à exceção de ‘Se eu fosse’, os ilustradores também faziam seu primeiro trabalho na área.
Maria Thereza e os filhos Gabriel e Felipe com Jakzam
Um dia, conversava com Tetê (apelido da jornalista Maria Thereza, capixaba criada em Curitiba), bastante animado com os resultados, e ela comentou algo assim:
- Fico admirada com esta tua capacidade de te reinventar. Quando te conheci você fazia esporte, depois fez economia, campanha política, mestrado em antropologia, depois foi fazer revista de turismo, e agora está aí envolvido com livros para crianças, vibrando com desenhos, realmente entusiasmado com algo completamente diferente de tudo que você já fez.
Não esqueci o episódio porque tem tudo a ver com a minha personalidade - ter interesses múltiplos, gostar de aprender coisas novas e só me envolver se for pra fazer bem feito - e com o momento atual, resume Jakzam.
Pode ser que, inconscientemente, ele esteja repetindo seu pai, já falecido, nascido em Áries - signo ascendente - e primeira grande influência na vida.
Em seu livro que virou cult, "Tempos Heróicos", Jakzam é alter ego de Beto, e descreve a personalidade do pai em um dos trechos:
"O pai é uma figuraça. Quando jovem foi jogador de futebol profissional e crooner de uma banda de jazz. Ganhou torneios de patinação, resolveu ser militar porque considerou uma carreira segura. (…) Durante 20 anos foi presbítero, coordenador da Escola Dominical e presidente do orfanato, onde fundou um grupo de escoteiros para crianças. Separado, deixou de ser membro efetivo da igreja, mas não abandonou a fé (…) vai aos cultos em igrejas diferentes, presbiteriana, luterana, metodista. Como não paga mais o dízimo, destina 10% do salário para material bíblico, que distribui nos fins de semana na patinação. Entretanto não deixou de freqüentar a ‘Mano a Mano’ com a Melissa; sempre conseguem boas colocações nos concursos de tango. Ele aparece cada vez com uma namoradinha diferente - um dia me mostrou um contrato conjugal com a Melissa, assinado pelos dois, no qual está previsto um dia por semana de liberdade, e ele a aproveita muito bem.
Como é possível alguém conviver com tantas facetas diferentes?" (Pág. 64)
Sem perceber, Jakzam provou mais uma vez que o fruto cai perto do pé.
Seu pai foi a primeira grande influência na vida. Permaneceram amigos até o final, pois sempre teve por parte dele um tratamento respeitoso. Mesmo quando separou-se da mãe, fez questão de justificá-la ao menino de 11 anos:
"Há uma incompatibilidade de gênios entre nós, temos modos diferentes de viver. Sou otimista como você, a gente pensa positivo. E nós temos brigado demais."
Jakzam ainda pediu para morar com ele, mas o pai foi pragmático: "Seu lugar é com sua mãe e sua irmã, que é muito pequena e precisa de sua presença, seu otimismo e sua força". E recebeu uma lição: "Nesses anos todos estivemos sempre juntos e procurei te ensinar o que sabia e podia. Você tem boa índole, é esperto, inteligente, vai se virar bem sozinho. Fica combinado o seguinte: a partir de agora, não vou dar mais lição de moral, dizer o que você deve fazer, o que é certo e errado. Só presta atenção num último aviso: não carrego marmanjo pela mão, ouviu? Você vai estar por sua conta, vai fazer suas escolhas, mas terá que assumir a responsabilidade por elas." (Pág. 35)
Jakzam no colo da mãe Jurema
Em uma das belíssimas cartas publicadas - o ponto alto do livro, aliás - seu pai lhe ensina algo que certamente deve ter sido útil ao longo da vida: "Todos têm seus traumas de infância, mas os que amadurecem libertando-se deles deixam de agir sob seus reflexos, passam a usar a razão e o bom senso." (Pág. 97)
Encontrei Jakzam quando ele era um dos revisores de Zero Hora e disputou a vaga que havia no esporte, setor em que eu era o Editor. Há diversos registros a respeito em "Tempos Heróicos". Para aguçar a curiosidade, apenas informo que meu apelido é Sultão, conforme revelei em um post escrito ano passado.
A partir daí passamos a desfrutar de uma sólida amizade, tanto que, quando fui transferido para Florianópolis a fim de montar a primeira equipe que lançou o Diário Catarinense, levei parte do esporte: Pedro Macedo, Luiz Zini Pires, Jakzam Kaiser e Breno Maestri. Todos na foto ao lado.
DC: com Zini, Breno, Jakzam e Pedro Macedo
Vida que segue. Do time mencionado, apenas Breno Maesti e Jakzam Kaiser permaneceram em Florianópolis. Deixaram o jornal, como quase toda a equipe pioneira, mas obtiveram sucesso profissional e constituíram belas famílias.
Breno casou com Chuchi Silva depois que ela abriu mão de um compromisso formal para viver essa paixão arrebatadora. E dia 24 de novembro de 2007 realizaram o casamento civil, testemunhado pelos três filhos, já crescidos: Enzo, Franco e Gianna. "Há 20 anos vivemos juntos e apaixonados. Venha comemorar com a gente", dizia o convite.
Breno Maestri, Jakzam Kaiser e Chuchi Silva
Logo que saiu do Diário Catarinense, Jakzam conheceu um homem que, além de correto e digno é sempre uma lição de sabedoria: o autor consagrado com mais de um milhão de exemplares vendidos e aventureiro vocacional, Werner Zotz.
No início da convivência fizeram de tudo um pouco: programa eleitoral, depois foi seu redator publicitário na agência que ele dirigia, e assessor de imprensa quando Werner Zotz, autor de "Apenas um Curumim", foi secretário de comunicação do estado de Santa Catarina. Um chefe que virou professor, amigo e hoje é um parceiro em projetos e de vida.
Jakzam Kaiser e seu mestre Werner Zotz
"Estamos juntos há mais de 20 anos. Ele foi meu chefe. Um chefe exigente ao extremo, tanto no resultado quanto no comprometimento. Como correspondi às suas expectativas, nas sucessivas equipes que montou, em diferentes situações, era sempre chamado. Ao final, chegou um momento em que eu era o primeiro (e às vezes o único) cara a ser chamado para trabalhar com ele, e nos tornamos bastante próximos. Criou-se, então, uma relação de mestre-aprendiz, que me beneficiou e continua beneficiando ainda hoje, pois tenho sido destinatário - digamos assim - do conhecimento dele. Hoje, esta relação evoluiu para uma forte amizade. E, além de parceiros de trabalho, temos sido também companheiros de viagens."
Essa cumplicidade entre Jakzam e Werner, com a presença de Tetê e Chuchi, fazem da Letras Brasileiras uma editora reconhecida, a ponto de ter concluído com sucesso um trabalho destinado ao turismo em todos os estados do país.
Não é a primeira vez que Jakzam Kaiser é premiado. No ano de 2000, ele recebeu da Câmara Catarinense do Livro o ‘Prêmio Boi-de-Mamão’, na categoria ‘Publicação Jornalística’, pelo edição do livro "Santa Catarina - Oportunidades e Negócios - Panorama da Sociedade Catarinense atual" (ao lado).
O sucesso foi tanto que já está em sua sétima edição e tem versões para 14 idiomas.
Confessa uma pendência: "Aventura no Coração do Brasil" (textos seus, fotos de Werner), quinto volume da Coleção Expedições, referente à viagem de jipe pelo Pantanal, as grandes chapadas (Guimarães-MT, Veadeiros-GO e Diamantina-BA), Jalapão-TO, cidades históricas de Goiás (Goiás Velho e Pirenópolis) e as capitais do centro-oeste brasileiro. Só não foi publicado porque Jakzam ainda não deu ponto final aos textos.
E a viagem para o sexto volume da "Coleção Expedições", também com textos seus e fotos do Werner (como "Aventura no Caminho dos Tropeiros"; os outros volumes são "Aventura nos Mares do Brasil" - capa reproduzida ao lado -, "Aventura no rio Amazonas" e "Aventura no Fim do Mundo", os três com textos e fotos somente de Werner Zotz) já está marcada, conforme Jakzam, inclusive ao informar as minúcias do próximo roteiro:
"Em julho, a mesma turma (Werner, Betty, eu, os filhos e a Tetê), vamos navegar todo o trecho brasileiro do rio Paraguai, desde Cáceres-MT até Porto Murtinho-MS, na fronteira com o Paraguai. Num segundo momento, sem as crianças e mulheres, Werner e eu pretendemos ir de Porto Murtinho até Colônia de Sacramento, na Bacia do Prata, completando o percurso de todo o rio. Penso (se der ainda antes da publicação deste livro), em voltar ao extremo Norte do rio, acima de Cáceres-MT, e localizar onde o Paraguai quase se junta com o Guaporé, quem sabe navegar em direção Norte até o Madeira, e o depois Amazonas, repetindo o feito do Roosevelt, que fez esta navegação." Ufa!
E quais são os planos futuros do Editor do Ano? Jakzam tem muitos desejos:
"Ir à África com os guris e a Tetê, para fazer outra expedição destas, com safáris, vôos de balão, cavalgadas, trechos de barco. Tudo o que tiver a ver com a minha personalidade - ter interesses múltiplos, gostar de aprender coisas novas e só me envolver se for pra fazer bem feito."
Jakzam com Felipe e Gabriel em Floripa
"Se serão todos realizados? Se vou conseguir esticar o tempo para fazer todas este projetos? Não sei. Mas, nos últimos anos, tenho funcionado assim: jogo as sementes e colho o que é possível. Aprendi que se a gente plantar 1 hectare, colhe normalmente menos de 1 hectare; se quisermos colher 1 hectare temos que plantar em dois, três, dez hectares."
Entre as cartas cheias de sabedoria que Jakzam recebeu de seu pai e dividiu com os leitores em "Tempos Heróicos", destaco esse trecho magnífico:
"Não somos fisicamente eternos, somos mortais. Enquanto estivermos vivos podemos ser felizes integrados na estrutura humana, social ou hierárquica nas horas de trabalho; fora delas, com boa remuneração podemos fazer o que gostamos, e este lazer é a finalidade do trabalho. O vencedor é o que usufrui com mais meios, mais estabilidade, mais lazer, mais
Tetê e Jakzam: aventuras em parceria
respeito e credibilidade alheia e mais hierarquia. Meu desejo de pai pra filho é que você seja sempre um vencedor." (Pág. 81)
Descanse em paz, José Delvair Kaiser. Seu filho é um vencedor.
Jakzam Kaiser na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso
A amizade é o maior de todos os prêmios. Obrigado, irmão. Vida longa!
Meu eterno Sultão, fiquei emocionada e me orgulho de fazer parte dessa história. E acho que esse poema do Leminski tem tudo a ver com você, com a gente, com o Jak: “essa coisa de querer ser exatamente aquilo que somos ainda vai nos levar além”.
Superbeijo
Emanuel Sultão…
Show de bola essa matéria sobre Jakzam kaiser e companhia…
Muito legal teu blog…
Abraços aí…
Gustavo
Parabéns pelo texto, parabéns ao Jakzam. Pra fazer um gancho com o comentário da Chuchi, registro aqui mais uns versinho do Leminiski que acho que também combinam como tudo dito acima: ” Não discuto com o destino, o que pintar, eu assino”. E não é esse o segredo?
Para quem conheceu o Jakzam na disputa por uma vaga e depois atendendo seus pedidos de fotos, sabia o que tinha pela frente: um ser determinado. Conseguimos trilhar um bom caminho juntos e por vários atallhos que criaram uma cumplicidade. O que o Jakzam é hoje é o que ele sempre mostrou, principalmente há 23 anos: um baita amigo e um baita profissional. E sortudo ainda: encontrou a Tetê para ter dois belos e também determinados filhos (o fruto cai perto do pé, não Emanuel?)
Emanuel:
Acompanho a aventura de JK e WZ por esta vida desde 1994. O que você escreve sobre eles é muita verdade. Mais, trabalhar com eles, o que tenho feito intensamente nestes últimos 8 meses - já em segunda “edição” - é muito instrutivo, entusiasmante, gratificante pelos resultados e principalmente, divertido.
Abs
Eduardo
Grande Sultão!!
Parabéns pelo excelente post sobre o Jakzam, realmente uma pessoa especial e um vencedor. Fico feliz também por ter encontrado o endereço do teu blog e assim retomar contato com esta figura tão especial, meu “patrão” de Zero Hora e DC e agora companheiro na sofrida missão de parir um livro para a Letras Brasileiras….
Um grande abraço!!
Rogério Monteiro
Novamente um texto quase definitivo do Emanuel. O Jakzan merece. Desde os tempos do Esporte da ZH ele é o meu voto!
Bah, não sabia do prêmio para o Jakzam. Merecidíssimo. Eu, que acompanho o trabalho dele meio de longe aqui na Aplauso (muito graças à presença marcante da Chuchi), sei o quanto é difícil estruturar uma editora, manter um catálogo de qualidade e ainda por cima dar visibilidade aos livros e aos autores com uma mídia tão mesquinha como a nossa. É soda!!!!
E o JK faz tudo isso em Floripa, a cidade dos sonhos de 9 entre 10 gaúchos, mas também um paraíso difícil de ser compreendido e mais difícil ainda de ser “dominado”. Parabéns, JK!!! Parabéns ao Emanuel, que soube dar a emoção adequada à notícia.
Flávio Ilha