A coragem do humorista Carlos Nobre
Enviado em 25 de Abril de 2008
Publicado por José Emanuel Gomes de Mattos | Enviar por e-mail
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Em 1995, a Unesco instituiu 23 de abril para comemorar o Dia Mundial do Livro, data em que morreram William Shakespeare e Miguel de Cervantes. É uma boa ocasião para se recomendar renomados autores ou livros.
Aproveito para sugerir a leitura de “A Guerrilha do Riso –
Carlos Nobre x Ditadura Militar Brasileira”, da Mercado Aberto. E justifico esse resgate histórico.
Na capa do livro, o riso se sobrepõe à carranca de um militar
No início do mês, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu indenizações a 20 jornalistas perseguidos no regime militar. As maiores foram destinadas aos cartunistas Ziraldo (R$ 1,2 milhão) e Jaguar (R$ 1 milhão), presos na época em que trabalhavam no jornal “O Pasquim”.
A decisão provocou uma senhora polêmica na mídia e até abaixo-assinados, além da ironia daquele que é considerado o ‘papa’ do humor, Millôr Fernandes:
- Então eles não estavam fazendo uma rebelião, mas um investimento.
Sem entrar no mérito dessa discussão, prefiro divulgar o belo resgate de parte importante da obra do genial humorista gaúcho Carlos Nobre. Nele se encontra o irretocável exemplo de um homem que nunca deixou de criticar os militares golpistas antes mesmo deles tomarem o poder, em 31 de março de 1964.
O autor de “A Guerrilha do Riso” é seu filho, o jornalista Marco Antônio Villalobos, que atualmente leciona nas Faculdades de Comunicação da PUC e da Ulbra. É resultado de sua dissertação de Mestrado em História na PUC. E concluída com brilho, como atesta a orientadora Sandra Brancato, na apresentação do livro:
“A criteriosa pesquisa feita nas colunas assinadas por Nobre em jornais como Última Hora, Folha da Tarde e Zero Hora revelou, afinal, que não só o futebol, belas mulheres e situações do coditiano passaram pela aguçada crítica do cronista. Pelo contrário,
Marco Antônio: resgate histórico
Nobre, com muita coragem e habilidade, foi capaz de denunciar políticos e militares que, segundo sua ótica, conduziam o país de forma inadequada.
É importante salientar que Marco Antônio, com a publicação deste livro, além de fazer um exaustivo levantamento do período estudado, oferece aos leitores mais jovens a oportunidade de conhecer a produção de Nobre e, aos mais velhos, a grata satisfação de recordá-lo”.
Marco Antônio, também autor da tese de Mestrado em Comunicação “Ditadura e Resistência Popular no Uruguai” (Editora da PUC/2006), revela: quando jovem, de cabelos compridos e radical, considerava seu pai politicamente conservador.
- Anos depois, já amadurecido, tive a sorte de reler as 7.300 colunas que ele escreveu no período de 1963 a 1985 e pude analisá-las sem paixão. A crítica política era nitroglicerina pura. Por isto, a tese que escrevi a respeito é quase uma expiação.
Na introdução de seu livro, Marco Antônio avalia o significado e a importância da pesquisa histórica da obra de Carlos Nobre:
“Por 21 anos, de 31 de março de 1964 a 15 de março de 1985, o Brasil viveu sob regime ditatorial instaurado após um golpe de estado que derrubou o governo constitucional do presidente João Goulart. Para os militares, uma
Carlos Nobre: tela de Wolf Schumacher
revolução que cumpriu desde seus primeiros passos, com irredutível fidelidade o compromisso que, em momento grave de nossa história, assumiu ante o país, de lhe restituir a ordem e a tranqüilidade, tendo como base Doutrina de Segurança Nacional.
Para o jornalista gaúcho Carlos Nobre, que durante o período atuou nos jornais Última Hora, Folha da Tarde e Zero Hora, foi um momento de luta intensa contra as restrições à liberdade de expressão, afinal, conforme destacava “o mundo foi conduzido à verdadeira justiça social graças aos grandes humoristas: Voltaire, Rabelais, Cervantes. Este último talvez o que deixou no mundo marcas mais profundas. O que é Dom Quixote? A justiça pelo riso, portanto, o mundo deve quase tudo ao humor”. As armas para o duelo estão colocadas frente a frente. De um lado o canhão da intolerância, da censura. Do outro, o
Nobre e Virgínia: 32 anos casados
humor, festejado por Luis Fernando Veríssimo como ‘a força que manteve viva esta idéia de irreverência, a velha irreverência do brasileiro em relação aos poderosos, mesmo em tempos de ditadura’.
São vários atos que incluem avanços e recuos táticos de quem, com a guerrilha do riso, conseguiu marcar sua posição nas fileiras dos que lutaram sem tréguas pela volta da democracia. Mesmo enfrentando ameaças e pressões foi possível deixar claro para todos o que representa a falta de liberdade para quem trabalha na construção do riso de milhões de pessoas. Afinal, conforme Ernani Ssó, parafraseando Shakespeare: “O humorista é o cara com faro para o que há de mais podre no lendário reino da Dinamarca. Quando o humorista é ameaçado, preso ou espancado, não há apenas algo de podre no reino. Todo o reino está podre”.
Em resumo, coragem nunca faltou a Carlos Nobre para escrever o que pensava a respeito da ditadura no Brasil. O livro “A Guerrilha do Riso” é dividido em quatro capítulos. Neles “…usando o humor, que fez tão nobre como assinava seu nome (…) não propriamente para fazer rir, mas para fazer pensar sobre o que acontecia no Brasil”, assinala a professora de História, Sandra Brancato.
1 – A Democracia Golpeada. As Forças Armadas Mudam de Tática;
2 – O Período das Sombras;
3 – O Brasil Começa a Mudar. Da Repressão Vencida à Abertura Política;
4 – O Riso vence o Canhão.
Os capítulos possuem sub-divisões cronológicas, em 229 páginas, que possibilitam recordar personagens ou fatos marcantes da história dos anos de ditadura no Brasil, assinalados pelo humor imbatível de Carlos Nobre.
Parte do texto da última capa, assinado pelo jornalista uruguaio Rodolfo Porley Corbo, explica a ilustração da capa, em que o sorriso de um humorista contrasta com a carranca de um militar quando o desenho é virado.
“Pendurado, encapuzado no centro clandestino de torturas em 1977, como jornalista opositor à ditadura militar uruguaia, ouvi que outro seqüestrado flagelado junto a mim, também por suas convicções, expressou suas angústia gritando “me cago em Dios”. Um dos militares replicou espontaneamente e ofendido: “Respete las ideas ajenas, mocito”. Pude rir dentro de minha alma, fantástico bálsamo. O humor, ainda que escondido nas entrelinhas, tem força de vida, de dignificação da condição humana. Pode desafiar os limites mais extremos. Porém há que ter muita humanidade para criá-lo e compartilhá-lo com milhares de compatriotas desafiando os limites durante 21 anos. Esta é a epopéia de Carlos Nobre, que nos emociona na obra do jornalista e professor Marco Antônio Villalobos. Ela faz justiça a tanta dignidade inteligente, silenciosa e não estridente com a qual jornalistas de todos os povos deram o melhor de suas vidas por seus semelhantes.”
A seguir, a seleção de dez críticas bem humoradas de Nobre para cada um dos capítulos do livro, que inicia antes do Golpe de 1964, e finaliza depois da eleição de Tancredo, em 1985, com as datas e os jornais onde foram publicadas:
Capítulo 1 – A Democracia Golpeada. As Forças Armadas Mudam a Tática
“Uma coisa Charles Darwin jamais imaginou na sua Teoria das Origens: que gorila viesse a usar capacete, a falar espanhol e até português.” (Última Hora, 7/6/1963)
“Se, como afirmava Darwin, o homem descende do gorila, então não houve evolução alguma. O gorila apenas botou um uniforme.” (Última Hora, 10/7/1963)
“Ah, meus amigos, quando a gente olha o Brasil para 64, fica-se torcendo para que os bombeiros não cheguem muito atrasados.” (Última Hora, 30/12/1963 – o golpe militar foi dado três meses depois)
“Gorilas do Brasil e da Argentina festejam a derrubada do Jango. Bom, se vale a expressão dos argentinos a nosso respeito, os gorilas deles são gorilas mesmo, mas os nossos são apenas macaquitos.” (Última Hora, 27/3/1964)
“O recesso parlamentar de julho foi interrompido pelas cassações. Engraçado, eu pensei que as cassações é que davam o maior recesso ainda.” (Zero Hora, 27/71964)
“Sim, só falta agora alguns governadores telegrafarem ao Castelo Branco solidarizando-se com sua feiúra.” (Zero Hora, 7/4/1965)
“Milhares e milhares de pessoas cumpriram seu alistamento eleitoral recentemente na renovação de seus títulos. Agora estão aptas finalmente a não votar.” (Zero Hora, 9/9/1965)
“A nova lei de imprensa é clara: fará com que os jornais falem dos defeitos do governo como se eles fossem defeitos maravilhosos.” (Zero Hora, 17/10/1966)
“Com a nova lei de imprensa os jornais das TVs continuarão em circuito aberto. Os jornalistas é que poderão ser fechados.” (Zero Hora, 24/10/1966)
“Já está autorizado convênio autorizando jornalistas a gozar 20% de desconto no Pronto Socorro Particular. Esse negócio veio em boa hora. Os cassetetes estão cada vez mais aperfeiçoados.” (Zero Hora, 12/11/1966)
Capítulo 2 – O Período das Sombras
“No Rio de Janeiro o DOPS prendeu dois estudantes. Motivo: eles estavam soltos.” (Zero Hora, 12/7/1965)
“A eleição veio em boa hora. Já não há muito deputado aí para ser cassado.” (Zero Hora, 10/10/1966)
“Padres foram presos em Volta Redonda. Que ironia, hein? Justamente em Volta Redonda os padres estão vendo o sol nascer quadrado.” (Zero Hora, 27/11/1967)
“A ONU diz que brasileiro é o povo do mundo formado com a maior mescla de raças. Não duvido: aqui temos pretos, amarelos, brancos e agora já estão começando a aparecer os roxos de tanto apanhar.” (Zero Hora, 6/2/1968)
“Estudantes agora vão fazer plebiscito. Escolherão se preferem cassetete de borracha ou de madeira.” (Zero Hora, 14/4/1968)
“A sorte de muitos estudantes presos é que os presídios não cobram entrada.”
(Zero Hora, 27/5/1968)
“O Ministro da Justiça vai publicar o livro branco justamente para desmentir este negócio de torturas. Eis algo que eu acho muito prudente, pois se tratando de um país de analfabetos, imaginem se o livro fosse escrito.” (Folha da Tarde, 5/10/1970)
“Acho uma baita injustiça dizer que até agora não se descobriu muita coisa sobre os chamados esquadrões da morte… E este baita número de cadáveres descobertos todos os dias?” (Folha da Tarde, 10/7/1970)
“Sorte é Jesus Cristo não passar pela Rua da Praia, senão pode ir em cana como cabeludo subversivo.” (Folha da Tarde, 23/1/1971)
“Conselho para perfeita liberdade de expressão na democracia. 1 – Não pense. 2 – Se pensar, não fale. 3 – Se por acaso alguém descobrir seu pensamento, desminta logo. 4 – Se o pensamento aparecer publicado, pelo amor de Deus, diga que é apócrifo. 5. Se não acreditarem prepare um baita desmentido. 6 – Se mesmo assim não adiantar, refugie-se na Embaixada do Senegal.” (Folha da Tarde, 20/7/1973)
Capítulo 3 – O Brasil Começa a Mudar. Da Repressão Vencida à Abertura Política
“Ao receber a notícia de que as eleições continuariam indiretas, o MDB se declara perplexo. Besteira do MDB. Onde já se viu ficar perplexo com as coisas que acontecem neste país, né? Vai ficar perplexo a vida inteira.” (Folha da Tarde, 5/5/1972)
“Leio no jornal que o resultado da eleição para as prefeitura sairá oito dias depois. Por isso é que o resultado da eleição para governador é melhor. O resultado sai uma porção de dias antes.” (Zero Hora, 2/1/1976)
“A transmissão do ballet ‘A Morte do Cisne’ foi proibida pela censura. Aliás, a censura nem sabia que o cisne tava doente.” (Zero Hora, 3/4/1976)
“Ontem saiu nesta coluna que anteontem foi o dia da liberdade de imprensa. Em seguida todo mundo me cumprimentou. Foi a maior piada que eu escrevi até hoje.” (Zero Hora, 4/4/1976)
“Leio que a greve de 200 presos políticos agora é nacional. Isto não é nada. Precisa ver a fome sem greve de milhões que não tão nem presos.” (Zero Hora, 6/5/1978)
“Dizem que o AI-5 vai cair. Então sai de baixo, porque durão como ele é, se cair na cabeça de alguém mata na hora.” (Zero Hora, 14/11/1977)
“Com tudo o que o Figueiredo anda dizendo fica difícil ser humorista neste país com a concorrência cada vez mais forte.” (Zero Hora, 17/6/1978)
“Se os democratas deste país estão loucos para que prendam os terroristas que enviam cartas e pacotes explosivos pelo correio, imaginem os carteiros.” (Zero Hora, 30/8/1980)
“No ABC paulista Lula foi em cana. Em Ouro Preto 50 estudantes também. Não tô entendendo bem esta abertura. Vai ver que sou burro mesmo.” (Zero Hora, 22/4/1980)
“Delfim diz que não é o culpado pela inflação. Claro que não. Todo mundo sabe que o culpado pela inflação sou eu.” (Zero Hora, 16/1/1981)
Capítulo 4 – O Riso Vence o Canhão
“Dom Urbano Algayer espera a confirmação das eleições de 1982. Padre é assim mesmo: quase sempre acredita em milagre.” (Zero Hora, 30/12/1981)
“Nunca concordei que houvesse no Brasil uma maioria silenciosa. Para mim o que houve foi uma maioria silenciada.” (Zero Hora, 16/7/1982)
“E se não tiver eleições no Brasil? Ué, nada de mais. O país volta à normalidade.” (Zero Hora, 3/8/1982)
“Quando se diz que alguns povos não estão preparados para a democracia, quer dizer que estão preparados para a ditadura?” (Zero Hora, 18/10/1982)
“Pichar um muro a favor das diretas é fácil. É só correr o risco.” (Zero Hora, 8/7/1984)
“Eleições só em 1988, mas até lá, dada a incapacidade de governar este país, já devemos ter devolvido ele aos índios.” (Zero Hora, 18/4/1984)
“No regime da baioneta calada, a imprensa também tem que calar a boca.”
(Zero Hora, 24/4/1984)
“O general Ludwig votando no Clube Militar: ‘Gostei de votar, já nem lembro quando foi a última vez’. Nós também, general. Aliás, brasileiro precisaria ter uma memória de elefante para se lembrar de uma coisa dessas.” (Zero Hora, 19/5/1984)
“Junto meu desejo ao do Presidente Figueiredo. Também tô contando os dias para que este governo acabe logo.” (Zero Hora, 8/8/1984)
“A preocupação agora no Brasil é que, além da democracia, voltem a funcionar também os intestinos do Tancredo.” (Zero Hora, 27/3/1985)
Tributo a Carlos Nobre
Nascido na cidade de Guaíba, em 7/4/1929, onde foi batizado como José Evaristo Villalobos Júnior, adotou o pseudônimo de Carlos Nobre para enganar a mãe, que o proibia de cantar nos programas de calouros da Rádio Gaúcha, sua grande paixão.
“E até que a família tomasse conhecimento das histórias, muitas vezes ouviu a mãe comentar sobre um tal de Carlos Nobre que cantava muito bem. Essa deve ter sido a primeira piada dele”, escreveu o jornalista Kenny Braga no Colecionável da Revista Press: “Nomes que Fizeram a Imprensa Gaúcha”.
Passei parte da infância em um internato, obrigado religiosamente a deitar cedo. Meu prazer, às segundas-feiras à noite, era ligar o pequeno rádio de pilhas, com fones de ouvido, e escutar o ‘Campeonato em Três Tempos’, programa criado pelo talento de Carlos Nobre. As novas gerações não têm idéia do que ele significava na época em que não havia televisão. Kenny Braga escreveu a respeito:
Campeonato em Três Tempos, com Nobre
“O grande sucesso, insuperável na história do rádio gaúcho, foi o seu ‘Campeonato em Três Tempos’, com uma crítica cheia de humor sobre a rodada do final de semana do campeonato estadual. Havia a personagem ‘Miss Copa’ (Leonor de Souza), disputada por todos os participantes. No final do campeonato, ela casava com o campeão. E cada clube era representado por um dos componentes do elenco de humoristas da Rádio Gaúcha. Carlos Nobre era o Grêmio; Fábio Silveira, o Internacional; Dimas Costa, o Bagé, e Ismael Fabião, o Pelotas. O programa foi ao ar durante dez anos.”
Carlos Nobre era disparado o nome mais consagrado do humorismo gaúcho quando ocorreu a sua morte prematura, aos 56 anos, em Porto Alegre.
“No dia 16 de de dezembro de 1985, Carlos Nobre acordou, escreveu sua coluna para Zero Hora e, depois do almoço, teve um segundo enfarte.
Não resistiu.
Ao saberem da morte de Carlos Nobre, muitos amigos foram ao apartamento da Rua Santo Antônio, principalmente colegas da RBS, preocupados com a família do velho companheiro.
Maurício Sirotsky e Nobre: amigos até o fim
Na ocasião, Marcos Dvoskin (diretor da mídia impressa) teria perguntado ao Maurício Sirotsky Sobrinho (que morreria três meses depois):
- E a última página da Zero Hora, como fica?
O amigo e chefe de tantos anos respondeu:
- A última página de Zero Hora acabou.”
(Kenny Braga, em ‘Nobre na arte do bom humor’, do Colecionável ‘Nomes que Fizeram a Imprensa Gaúcha’, no qual Maurício Sirotsky foi um dos perfilados).
O filho mais velho, José Evaristo Villalobos Neto, não entende como até hoje nenhuma editora se interessou pela publicação dos melhores textos humorísticos do pai:
“Já se passaram duas datas oportunas para a divulgação desse material: nos dez e nos 20 anos da morte do pai” , lamenta Nobrinho, atual assessor de imprensa do Inter. Ele relembra uma das façanhas obtidas pela coluna de Nobre. “O pai contraria a regra de que os profissionais são substituíveis. Até hoje não surgiu uma coluna diária de humor no Rio Grande do Sul. Ele criou o hábito dos gaúchos lerem o jornal de trás pra diante”.
José Evaristo Villalobos Neto
O neto Leonardo, filho de José Evaristo e Tânia, por quem Carlos Nobre era apaixonado, a ponto de ter publicado uma coluna inteira com as suas fotos, é o fiel depositário das 7 mil e 300 colunas do avô, que cuida com amor.
Ele fez questão de escrever a respeito da influência que Carlos Nobre teve em sua vida. Finalizo essa homenagem com o seu depoimento emocionado:
Meu avô, Carlos Nobre - Por Leonardo Aguilar Villalobos
“Tive a oportunidade de conviver pouco com o meu avô. Minha avó Virgínia tratou de relembrar esse convívio. O legado que ele deixou para o Rio Grande é grandioso. Em relação ao destino da minha família não se pode negar sua gigantesca contribuição.
Leonardo Villalobos: homenagem ao avô
Meu avô é o meu grande referencial. Era um cara muito humano e justo. De origem humilde, pela lógica da vida, fatalmente teria grandes dificuldades. Mas foi predestinado a ter uma Missão Alta como humorista e poeta insubstituível.
Embora tenha falecido cedo, tenho uma sensação no sentido da continuidade. Meu avô não morreu, pois o seu ideal permanece. Eu e os meus familiares temos orgulho e admiração dessa origem. E isso não muda. Todos os dias procuro seguir o seu compromisso.
Meu avô lia bastante, era muito culto. Ele me influenciou a aproveitar a vida, a rir bastante. Mas principalmente a valorizar as relações afetivas. E, acima de tudo, a ter um grande coração, como o ser humano que ele foi.
Quando me formei em Direito, em 2006, coloquei fotos da minha família no Telão. Mas a dele de
Rodrigo, Bibiana e Leonardo: netos de Nobre
maneira isolada para deixar claro o que ele representa para o meu destino em todos os sentidos.
Tenho grandes referências profissionais, alguns professores inesquecíveis. Mas, o meu avô Nobre, acima de tudo, é meu grande ideal. Em Direito, o que conta é bom senso e agir com humanidade acima de tudo. Tenho certeza que toda a minha família carrega esse compromisso.Temos o destino de nunca deixar de lado a herança afetiva dos nossos antepassados.
Eu sou neto do Carlos Nobre e isso não tem preço. Considero uma herança decisiva na minha existência e o caminho que pretendo seguir. Não é uma frase de efeito. Quem me conhece sabe o quanto eu valorizo essa origem.
Estudei toda a história do meu avô. Guardei todas as colunas e roteiros de novelas de rádio. Tenho muitas imagens dele na TV. Fotos de shows. E inúmeras conversas com meus familiares. Li todos os seus livros. E sempre escutei comentários de pessoas que conviveram com ele. Não considero algo triste a morte do meu avô porque vivo esse legado todos os dias.
Minha avó me contou que o meu avô era “apenas coração”. Vivia em outro mundo. Não tinha vaidades nem anseio por
Coluna de Nobre com imagens do neto Leonardo
fortunas. Ela conta que uma vez, no início da carreira, ele foi a uma festa de gala com o sapato rasgado. Ela o advertiu: “Nobre, tens que valorizar a tua imagem”. Meu avô respondeu: “Virgínia, não estou preocupado com isso, o que importa são as minhas convicções”.
Quando morreu o tio Gastão, meu avô compareceu ao enterro. Minha avó conta que ele estava triste e emocionado, mas tentava se conter. Ao final, quando o padre fez a clássica pergunta: “Alguém tem algumas palavras a dizer?”, meu avô não resistiu: “Eu tenho: Viva o tio Gastão!” Todos os presente gritaram:”Viva!”
Embora fosse jornalista famoso, meu avô fazia muitas críticas ao governo, às pessoas públicas. E, no entanto, sempre foi respeitado. Não havia ódio, nem rancor contra ele. Era um sujeito carismático.
Ele enfrentou com coragem a ditadura. Ajudou um amigo comunista e até levava comida para ele. Um dia, um
Tânia, a mãe, abraçada ao filho Leonardo
militar intimou meu avô: “Seu Nobre, sou seu fã. Mas, estão dizendo que o senhor está ajudando um comunista. O senhor conhece algum comunista? Meu avô respondeu: Muitos. Lenin, Trotski, Stalin…”.
Essa história é absolutamente verdadeira e retrata que meu avô era principalmente uma pessoa do bem: correto, honesto, puro, sem grandes interesses terrenos.
Ele foi exemplo de alguém que realmente dignificou a profissão em um Estado que teve grandes jornalistas, porque vestiu a camisa do jornalismo livre e honesto. Essa foi a sua grande contribuição. Vou procurar vestir a minha camisa também, porque estarei seguindo, com muito orgulho, o ideal de meu avô, Carlos Nobre.”
Marco Antônio, Virgínia, Carlos Nobre e José Evaristo: lembrança inesquecível
Meu bom Emanuel
Agradeço a homenagem feita para meu pai. Ele merece. Agradeço tua sensibilidade jornalística para comparar a atitude de Carlos Nobre com relação aos outros humoristas citados. Como escreveu meu irmão, Marco Antõnio, no final do livro Guerrilha do Riso , “o riso venceu o canhão”. E homens com o pensamento do meu pai foram responsáveis pela democracia que existe hoje no País.Temos muitos erros, é claro, mas não existe nada mais triste do que não se poder opinar, votar, decidir… Viva a Democracia !
Caro Emanuel
agradeço de coração tua lembrança em relação ao Carlos Nobre. Este livro na verdade tem somente o mérito de lembrar que além do futebol, mulheres bonitas e brincadeiras com todo tipo de assuntos da cidade, estado , país e do mundo, ele foi um jornalista que como tantos outros, com seu trabalho de guerrilha intelectual ajudou este país a recuperar o estado de direito e a liberdade de expressão. Fico realmente feliz que um jornalista de teu nível tenha gostado da obra.
Muito obrigado e
um abraço
marco villalobos
Falar do Nobre, do “Véio Nobre”, ao mesmo tempo que parece tão fácil, fica muito difícil. Fácil de lembrar a grandeza de seu coração, talvez só comparável ao seu talento. Do zelo e carinho que ele dedicava aos seus… Sua família, amigos, fãs… Lembro como se fosse hoje. Entretanto, me sinto pequeno para lidar com as palavras, tentando falar do alcance que a sua genialidade lidava com elas. Sinto saudades do Nobre. Mais forte que isso só o orgulho de tê-lo conhecido, privado do seu convívio. E de estar hoje perto do Evaristo, Marco Antônio, Virgínia e familiares. Obrigado “Véio”, por ter estado conosco. Por nos ter iluminado. Só não precisava nos deixar assim, com tanta saudade. Cuida de nós, aí de cima, junto das estralas. És uma delas. Eternamente “Nobre”.
Caro Emanuel Mattos,
Valeu a lembrança do Carlos Nobre, falecido e pouco lembrado, dele gravei: “Pessoas que não riem, não podem ser inteligentes.” Neste mundo conturbado que vivemos, a válvula de escape fundamental. O Nobre foi doutor nisto.
Parabéns!
Gelson Cecatto
Assim como o Marquinhos em sua juventude, eu também não me dei conta do aspecto contestador da obra de Carlos Nobre. Este belo trabalho resgata a memória de um autor genial e pouco valorizado após a sua morte. Ainda por cima feito por um dos seus filhos, que não poderia ter manifestado de melhor forma o seu respeito e carinho pelo pai.
Sobre Marco Antônio Villalobos: antes de se dedicar ao magistério, foi um dos melhores repórteres da RBSTV, na década de 80. Só tinha um defeito, que na verdade é uma qualidade, especialmente quando se trata de profissionais que aparecem na telinha: a modéstia. Sua prioridade era a busca da notícia e a sua apresentação da melhor forma possível. Fazia parte de uma notável geração de repórteres de televisão, entre os quais Carlos Dornelles, Ana Maria Magalhães (Ana Terra), Gilberto Lima e Timóteo Lopes.
Emanuel, parabéns por este blog.
Abraços
Emanuel
Nos tempos de guri tomava conta de um pequeno bar para o meu pai e comprava Zero Hora todos os dias só para ler o Carlos Nobre. Foi um dos meus gurus. Há alguns anos eu estava na redação meio inseguro com o trabalho e alguém ligou e elogiando a sensibilidade que coloquei na charge sobre a morte de Jacques Cousteau. Disse que era dona Virgínia mas pode ter sido só um anjo dizendo: vai em frente…
Um abraço
Tacho
Caro amigo,
Muito bom este resgate de um dos maiores humoristas gaúchos. Em 2.000, entrando na rádio Bandeirantes de Porto Alegre, fizemos um programa chamado “Futebol em 3 Tempos” que, nada mais era, do que uma homenagem a este artista único que foi Carlos Nobre. Claro que o programa foi um sucesso espetacular, mas o mérito não era dessa turma nova e muito talentosa que veio comigo, e sim da idéia original, nunca mais repetida, infelizmente, por causa da cultura curta de que humor não vende.
Seja feliz, e obrigado por esta matéria muito oportuna e necessária.
Grande abraço,
César JM Garibotti / Zurbulino Fagundes
www.zurba.com.br
O Carlos Nobre foi nosso Stanislaw Ponte Preta, focado principalmente em nossos pontos fracos que ele transformava não só em material para cair no riso mas para pensar.
E faz tempo que não pinta alguém sequer parecido em nossos jornais.
bj
Grato pela gentileza dos comentários.
O Carlos Nobre fez por merecer toda e qualquer homenagem que sirva para perpetuar a sua memória, que não pode ser esquecida.
Ao amigo e grande chargista Tacho, um recado: dona Virgínia, que ligou pra elogiar teu trabalho, continua viva e lúcida, aos 82 anos.