O insubstituível jornalista Pedro Macedo
Enviado em 27 de Março de 2008
Publicado por José Emanuel Gomes de Mattos | Enviar por e-mail
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O jornalista Pedro Fernando Garcia de Macedo (na foto) tem tido pouco espaço para escrever atualmente. Assim, perdem os veículos de comunicação e os leitores do Rio Grande, porque ele possui um dos melhores textos da praça.
Não apenas pelo perfeito domínio da língua portuguesa mas, principalmente, por seu conteúdo, algo cada vez mais raro na imprensa do Estado.
Prova disso foi o artigo desassombrado publicado no site Coletiva.net, em 26/3/2008, intitulado “Substituição” . Incrível a repercussão que teve.
Recomendo que o leiam antes de seguir adiante. Vale a pena refletir a respeito.
O Pedro é assim: um sujeito de grande personalidade, cuja lealdade aos amigos chega a ser espantosa. Prova disso está em seu Perfil, intitulado “Sensibilidade para o jornalismo” publicado no Coletiva.net em 5/1/2007.
Na época teve o recorde de comentários, fato que foi noticiado no site. E me inspirou a detalhar algo que revelavam: a afeição pelo extraordinário amigo.
Escrevi então o artigo “Pedro Macedo: o dom da amizade”, em 11/1/2007.
Relembro os fatos porque tenho recebido manifestações preocupadas. Até sugeriram que o Pedro pode estar com algum pensamento mórbido. Calma.
Conheço esse sujeito nascido em Bagé em 29/06/1948, filho da dona Aurora, o suficiente para assegurar: ele está de bem com a vida. A diferença é que, ao contrário de engolidores de sapo, diz o que pensa. E dorme o sono dos justos.
Vou ilustrar com um fato que poucos conhecem e anexo um documento inédito.
Em 1985, comandei a brilhante equipe de esportes de Zero Hora, integrada pelo Flávio Dutra, Mauro Toralles, Nico Noronha, Jones Lopes, José Evaristo Villalobos, Júlio Sortica, Paulo Burd, Adroaldo Guerra, Luiz Zini Pires, Jakzam Kaiser, Breno Maestri, Cláudio Dienstmann, Cláudio Furtado, Eliziário Rocha, Cláudia Coutinho, Vera Daisy, Mário Caminha, Carlos Alberto Fruet, Márcio Câmara, Ademir ‘Chimba’ e o saudoso Evaldo Gonçalves, entre tantos outros. Além dos colunistas Paulo Sant’Ana, Cid Pinheiro Cabral, Ruy Carlos Ostermann, Carlos Nobre, Lauro Quadros e João Carlos Belmonte. Era um time da pesada.
Da esquerda para a direita: Evaldo Gonçalves, Flávio Dutra, Júlio Sortica, Márcio Câmara, Maria da Graça, Emanuel, Pedro Macedo, Eliziário, Nico Noronha, Mauro Toralles, João Carlos Belmonte, Jones, Cláudio Dienstmann, Chimba, Paulo Burd, Breno Maestri, José Evaristo, Cláudia Coutinho, Jakzam Kaiser (ao fone) e Vera Daisy. Na ponta direita, Sílvinho; na esquerda, Paulinho, os contínuos.
Em maio daquele ano, seria realizada a tradicional corrida de cavalos em cancha reta na cidade de Santa Bárbara do Sul. Me ocorreu enviar alguém neófito em turfe, a fim de relatar as histórias do ambiente com nova visão. Escalei o Pedro.
Não havia carro disponível e ele pegou carona com o ex-cronista de turfe de ZH, o falecido Roberto Franco. Sem fotógrafo, Pedro contratou um profissional local. O material publicado teve grande repercussão. Mas por ordem superior, Pedro não recebeu o reembolso de Zero Hora pelas despesas fotográficas que pagou.
No final de 1985 fui para Florianópolis formar a equipe que lançou o Diário Catarinense. Convidei Pedro para fazer parte da equipe. Desfalquei o Nilson Souza, que assumiu o esporte da ZH, ao levar também Jakzam, Breno e Zini.
No início de 1986, anunciaram resultado dos ganhadores do tradicional Prêmio ARI – Associação Riograndense de Imprensa –, o principal do Estado. E a matéria vencedora na categoria de Reportagem Esportiva foi… exatamente a de Pedro Macedo sobre as corridas de cancha reta de Santa Bárbara do Sul.
Ficamos eufóricos e o diretor da mídia impressa da RBS liberou uma passagem aérea Florianópolis-Porto Alegre para que ele estivesse presente na cerimônia.
No dia do embarque, o Pedro entregou-me duas laudas datilografadas e disse:
- Esta é uma cópia, apenas para o teu conhecimento. O original já foi remetido.
Quando terminei de ler, quase caí da cadeira. Hoje, 22 anos depois, reproduzo a seguir o texto que guardei no meu baú por tratar-se de documento histórico.
Antes, duas providências: 1º - Pedi autorização ao Pedro para torná-lo público; 2º - Retirei o nome do destinatário pois não é o que interessa nesse contexto.
Eis a sua íntegra:
Florianópolis, 7 de maio de 1986.
De: Pedro Macedo
Para: (omitido)
Assunto: Merda
“Confesso que neste momento ainda estou um pouco confuso.
Em maio do ano passado, tu me disseste – pena que sem testemunhas – que a matéria sobre a cancha reta de Santa Bárbara do Sul não interessava ao jornal.
Ainda assim, a editoria de esportes de ZH, dirigida pelo Emanuel, na época, levou a idéia adiante e resolveu publicar a matéria. Eu também decidi que os Cr$ 200 mil que paguei a um fotógrafo local não me fariam tanta falta se o jornal não me reembolsasse, como na verdade aconteceu.
Agora, quando está bem perto o dia da entrega do Prêmio ARI de Reportagem Esportiva, penso de novo naquela tua avaliação da matéria e tenho o direito de concluir que estavas equivocado.
Mas também admito que enganados podem estar todos os outros envolvidos neste troço. Se me disseres que a comissão de pessoas que julga as matérias inscritas no Prêmio ARI é uma merda, tenho que aceitar esta opinião porque estarias simplesmente exercendo um direito teu.
Mas também tenho eu o direito de tirar algumas conclusões: se a comissão é uma merda, o prêmio também é uma merda. E se tudo isso é verdade, um jornal que dedica mais de meia página – como fez a própria ZH – para divulgar os resultados de um concurso desses, também é outra merda, exatamente o que se pode dizer de seu diretor-editor.
Como não concordo que o diretor-editor de ZH seja um merda (não estaria no cargo se o fosse) também não considero ZH um jornal de merda e acho justo o espaço dedicado aos resultados do Prêmio ARI de Reportagem.
Conseqüentemente, a editoria de esportes de ZH agiu bem ao publicar a matéria sobre a corrida de cancha reta de Santa Bárbara do Sul e melhor ainda ao decidir inscrevê-la no Prêmio ARI, um concurso que, justamente por sua seriedade, está completando 25 anos.
A importância do Prêmio ARI ainda foi confirmada esta semana pelo diretor da mídia impressa da RBS, Marcos Dvoskin, que não apenas me liberou para estar no Palácio Piratini no dia da entrega solene dos prêmios (que, segundo ZH, será feita pelo próprio governador do Estado) como ainda autorizou o pagamento de passagem aérea Florianópolis-Porto Alegre-Florianópolis.
“Isso é muito importante para a Zero Hora”, me disse o Marcos.
E foi a partir dessa frase que comecei a pensar em tudo o que escrevi até agora sobre o assunto.
Um abraço
Pedro Macedo
C/cópia para Marcos Dvoskin
Observação: Ainda não sei o valor do prêmio em dinheiro, mas imagino que é pouco maior do que precisei pagar para proporcionar a publicação do material.”
………………………………..
Fiz questão de resgatar esse conteúdo inédito a fim de tranqülizar os amigos de Pedro Macedo. Ele é exatamente assim: autêntico, bem humorado, irônico e capaz de transmitir fielmente o que pensa. Como ocorreu com o artigo “Substituição”, que tanto repercutiu entre os comunicadores locais.
Tenho certeza: logo seremos brindados com seu texto arguto em um veículo onde haverá espaço para esse talento que dignifica a atividade jornalística.
Ah, bons tempos. Lembranças que jamais serão perdidas. E o Pedrinho Macedo tem o que é dele bem guardado. Não é qualquer um ou qualquer espaço que mere tê-lo.
Emanuel. Só a foto já vale um suspirão de saudades de outras épocas. Mas não “sejemo” saudosistas, como diria nosso primeiro mandatário. Hoje é melhor que ontem, tirando os afetos perdidos.
O Pedro é um dos meus tipos inesquecíveis. Foi meu vizinho de editoria em O Sul e me proporcionou horas de descontração em plena zoeira de fechamento. Na TVE também convivemos, mas não tanto quanto queríamos. Lembro dele de outros carnavais, daqueles anos 70, todo mundo cabeludo, calça boca de sino, filharada pequena etc.
Eta tempo. Eta mundo.
bêjo
Lembro do PM lá na assessoria da Fiergs, nos idos de 87. Eu, um foca da revista Amanhã, vivia enchendo o saco do cara, que estava sempre contando histórias - como aquela do bagual bageense que deu uma surra de relho no seu fusquinha que não pegava de jeito nenhum - e facilitando a vida da gente.
É uma figuraça mesmo. Eu temo pelo nosso futuro, com esse mercado ficando cada vez mais “jovem” (e, claro, barato). Se ganhássemos como jogadores de futebol, até seria bom parar com 35 anos!!!!!!!
Abs
Reproduzido na íntegra no Blog Canetinhas e Microfones (www.canetinhasemicrofones.blogspot.com)
Formidável!!! Abraços, Lu Winck
Emanuel.
Como disse sabiamente a Maristela, colega lá no coletiva, “hoje é melhor que ontem, tirando os afetos perdidos”. Nada como um dia atrás do outro, Pedro, ex-colega de ZH e ex-assessor da Fiergs, um dos mais competentes que conheci ao longo do meu caminho no jornalismo econômico. Tenho certeza de que no meio deste caminho, que agora se apresenta sórdido para o Pedro, ele não perdeu os afetos verdadeiros. Aqueles que o abandonaram, principalmente os que devem estar em condições de lembrar do seu talento e chamá-lo para um trabalho (sim, o cidadão trabalha e não apenas quer se “encostar”), merecem apenas a nossa dor futura. Porque se no jornalismo, as pessoas são substituíveis, na vida não. Velho Pedro ? Será ? Pelo que li no artigo do coletiva e comentei através de mail particular para o próprio, ele não me parece velho. É mais um na selva dos meios de comunicação social.
Eta mundo.
Breno: concordo contigo em gênero e grau. O Pedro é uma figura muito especial. O fato de o mercado estar fechado para ele depõe contra o patronato em geral e alguns chefetes em particular. Acho lamentável que um dos melhores profissionais com quem convivi esteja fora do mercado. O resultado é essa mediocridade que impera nas redações de Porto Alegre. É de doer, amigo. Abração.
Maristela: não sei se suspiraste pela foto do Pedro ou aquela da redação mais fantástica que conheci. Claro que foi pelo teu amigo Pedro, claro. Mas resgatar aquela foto feita na noite da despedida da equipe de esportes de ZH, no final de outubro de 1985, é algo que só quem viveu o período pode avaliar. Nunca se formou uma equipe de esportes tão qualificada na imprensa gaúcha. Beijão.
Flávio: Pois é, irmão, dá uma tristeza danada ver esse amigo do peito passar por uma situação dessas. Episódios como esse me fazem ter cada vez mais bronca de alguns medíocres que ocupam espaço indevido nas redações, alguns semi-analfabetos, outros fazem parte da escória de puxa-sacos e lambe-botas de um bando de safados que comandam a imprensa regional. Um dia a casa cai.
Luciamem: fui lá no teu blog. Está uma graça. Fique à vontade para reproduzir o que quiseres do meu blog, querida. Um beijão.
Márcia: que bom teres publicado um comentário aqui. Assim posso registrar que a idéia de publicar esse texto me ocorreu a partir do comentário teu no post anterior, “Alfonsina y el mar”. Querida, tenha certeza: os medíocres são muitos, mas não sabem voar. Bjo.