Pela libertação do povo tibetano *
Enviado em 18 de Março de 2008
Publicado por José Emanuel Gomes de Mattos
Entrevista de 2007 ao correspondente do O Globo na China, Gilberto Scofield
A tibetana Dezong Zhuma, 28 anos, nunca vai se esquecer do dia em que, ainda menina, decidiu perguntar ao pai porque motivo ele precisava da ajuda dela e da irmã mais velha para trocar de roupa. O pai, um moedor de grãos, explicou que quando a China invadiu o Tibete, em 1951, os soldados do Exército de Libertação Popular (ELP) entraram na sua casa, destruíram parte de seus objetos pessoais, confiscaram outros e, quando ele protestou, recebeu uma surra tão grande a ponto de deixar os dois braços sem alguns movimentos. Mais tarde, na escola, percebeu que as crianças chinesas não se misturavam com as tibetanas, alvos de humilhações dos colegas. Muito do que ela via nos livros escolares era desmentido pela família em casa. "Aquilo não foi libertação. Foi invasão mesmo", diziam os pais.
Até que, há 10 anos, no dia em que a Grã Bretanha devolveu Hong Kong para a China (e ela se preparava para entrar na universidade), os tibetanos que moravam no seu vilarejo, ao Norte de Sichuan, foram proibidos de sair de casa. Temiam-se protestos na esteira da anexação de Hong Kong. Os chineses continuaram livres para circular. Nascia ali uma ativista. "Naquele dia, percebi que eu precisava lutar para preservar a cultura do Tibete ou seríamos engolidos pela China", diz Zhuma, cujo nome é fictício e que leva hoje uma vida dupla em Pequim. No horário comercial, é funcionária de uma empresa chinesa. No tempo livre, uma ativista clandestina que montou uma organização de ajuda aos tibetanos que migram para a capital da China atraídos por promessas falsas de emprego ou carreira artística e acabam em esquemas análogos ao de trabalho escravo e, muitas vezes, prostituição. Já ajudou centenas, mas sua impressão é que o cenário piora. Afinal, o Tibete é a região mais pobre da China. "O crescimento das grandes cidades tem atraído jovens tibetanos que acabam esquecendo suas origens na busca por melhores condições de vida", diz ela.
Os tibetanos estão engrossando a massa de trabalhadores rurais que migram para a grandes cidades chinesas em busca de melhores condições de vida?
ZHUMA: Cada vez mais, infelizmente. O crescimento das grandes cidades tem atraído jovens tibetanos que acabam esquecendo suas origens na busca por melhores condições de vida. O Tibete é uma região agrícola pobre e as pessoas são muito ingênuas, o que ajuda os aliciadores de mão-de-obra que prometem carreiras artísticas ou bons empregos nas grandes cidades da costa Leste da China. Os tibetanos chegam sem informação e acabam empregados em indústrias ou em restaurantes, mal recebendo para sobreviver. Muitos tornam-se alcoólatras. Outros resvalam para a prostituição, quando aceitam fazer sexo com seus empregadores para ter mais dinheiro.
Há muitos tibetanos nessa situação?
ZHUMA: Como a imensa maioria dos migrantes de regiões rurais da China, os tibetanos migrantes vivem em situações precárias.
E o que você faz?
ZHUMA: Eu me juntei a um grupo de pessoas que se dedica a ajudar os tibetanos, seja informando sobre os seus direitos, seja acolhendo-os em repúblicas quando notamos que muitos aceitam trabalhar por comida e moradia. Decidi porque eu mesma já passei por isso quando vim para Pequim. Infelizmente, não posso contar minha história com os detalhes que ela merece porque seria identificada e presa, mas posso dizer que boa parte da minha saúde se foi porque os donos do estabelecimento comercial em que eu trabalhava aqui achavam que os funcionários, todos tibetanos, não precisavam de calefação durante o dia no inverno, quando as temperaturas atingem facilmente 7 graus negativos.
Cidadãos tibetanos que não estão envolvidos com atividades políticas costumam ser presos no Tibete ou em grandes cidades chinesas?
ZHUMA: O tempo todo. Uma amiga foi presa aqui em Pequim porque na sua loja de antiguidades e artesanato tibetano alguém viu um antigo mapa do Reino de Tubo, precursor do Tibete ainda no século VII. São inúmeros os casos de tibetanos revistados à revelia pela polícia chinesa. Quando se descobre que
eles possuem alguma imagem do Dalai Lama, que funciona no Tibete mais ou menos como um escapulário católico, podem ser presos por até cinco anos como separatisas. Vivemos com medo.
A imagem do Dalai Lama ainda é viva na mente dos tibetanos?
ZHUMA: Ele sempre será um líder espiritual para os tibetanos, mas a emergência econômica da China está mudando a cabeça da nova geração, mais preocupada em aprender mandarim e tentar ganhar dinheiro nas grandes cidades. Há hoje um racha claro entre a antiga e a nova geração de tibetanos, especialmente nas maiores cidade do Tibete, como Lhasa e Xigaze. Temo que o Tibete perca sua identidade cultural com o enriquecimento chinês.
Os livros escolares em tibetano, produzidos pela China, falam o que sobre as origens do Tibete?
ZHUMA: Mostram que o país sempre foi parte da China, mas a tradição oral das famílias é deixar claro que não é bem assim, o que cria um sentimento conflitante nas pessoas. Eles gostam de frisar que, no passado, o Tibete era um Estado feudal escravocrata, como se isso fosse justificativa para a invasão. Ora, o Tibete sofria porque o poder estava nas mãos dos ricos e bem relacionados, exatamente como ocorre na
China hoje cada vez em maior escala. O Tibete tem uma história com a China, é claro, mas sempre com auto-determinação. Esta liberdade foi perdida.
E não há integração entre as etnias han, de 90% dos chineses, e os tibetanos?
ZHUMA: É um ideal romântico isso. Na prática, há uma distância e um preconceito enorme dos chineses com relação aos tibetanos, considerados toscos. No ensino básico, argumenta-se que é preciso separar as crianças porque elas falam línguas diferentes, mas nenhuma ação de integração dos grupos é tomada. Na universidade, os dormitórios são separados também com a desculpa de que as pessoas não falam a língua, mas isso já não é verdade. A maioria dos tibetanos que chega às universidades fala mandarim porque só assim eles aumentam a chance de conseguirem um emprego na China. Mesmo assim, as empresas chinesas não empregam tibetanos, o que é uma enorme discriminação. Um tibetano só é empregado por uma empresa chinesa se possui algum conhecido dentro da companhia ou alguém poderoso que o indique, na melhor tradição da rede de relacionamentos, o guanxi, que rege o país.
E no dia-a-dia?
ZHUMA: Sofremos porque somos tibetanos e sofremos porque somos pobres. As brigas, físicas até, são constantes entre os grupos. As pessoas sequer se interessam pelo Tibete na China. Um dia, numa discussão sobre a prática do enterro celestial que ainda ocorre no Tibete (em que o corpo é cortado em pedaços e serve de comida aos pássaros porque se acredita que, assim, sua alma subirá mais rapidamente aos céus), uma chinesa chamou os tibetanos de bárbaros porque a pele dos mortos era removida para fazer couro. Eu falei que aquilo era uma mentira, que nunca fizemos isso em nenhum momento da nossa história, mas ela disse que ouviu de um amigo. A China é um país do ouvir dizer e as pessoas, desinformadas, vão eternizando as mentiras como se fossem verdade.
* Retirado do Blog do professor, escritor e amigo Álvaro Larangeira


É inconcebível toda esta tristeza com o Tibet. E a covardia dos demais povos que não querem nem mesmo um protesto significativo contra a China. Dinheiro e poder, os males do mundo são.
bj
huashuahas, mtto louco o video .. hashuas