O cadáver insepulto de Evita Perón
Enviado em 20 de Novembro de 2007
Publicado por José Emanuel Gomes de Mattos | Enviar por e-mail
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Madonna no papel de “Evita“, filme dirigido por Alan Parker em 1996
Aconteceu, afinal, o anunciado encontro entre Lula e a futura presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Três dias antes de vencer no primeiro turno, com 8.650.990 votos (45,29%), Cristina prometeu que sua primeira viagem seria a Brasília. Não cumpriu, pois foi ao Chile de Michelle Bachelet participar da XVII Cúpula Iberoamericana.
É a primeira mulher eleita para o cargo majoritário na Argentina. Isabelita Perón, que era vice, assumiu o governo depois que Juan Domingo Perón morreu. Governou entre julho de 1973 e março de 1976, até ser derrubada pela ditadura.
Antes das duas, porém, houve o mito Evita Perón, a mãe dos pobres e protetora dos ‘descamisados’, responsável pela popularidade do general que presidiu a Argentina pela primeira vez entre 1946 e 1955 (foi reeleito em 1951 e deposto pelos militares).
Muito já se escreveu sobre esse período. Ninguém obteve o êxito espetacular de Tomás Eloy Martinez com o fantástico “Santa Evita”.
“Todo bom romancista é, de algum modo, um detetive”, diz Martinez, “pois manipula verdades que parecem mentiras e cria mentiras que se tornam verdades, e acaba acreditando que aconteceram exatamente dessa forma, embora ele as tenha inventado. Portanto, nesta condição, a única coisa que o escritor não pode é provar a veracidade daquilo que escreve”.
Delson Biondo, em ‘Santa Evita, um romance histórico’, analisou: “Neste jogo de mentiras verdadeiras, Martínez vai deixando em seu romance pistas que auxiliam ou advertem o leitor sobre os perigos dessa artimanha. Talvez por isso Martínez deu a “Santa Evita” a forma de reportagem. Foi o modo mais convincente que encontrou para conferir verossimilhança a uma história completamente inverossímil. Assim o autor também se transforma num personagem que conhece e entrevista outros personagens do romance (embora nunca tenha realmente entrevistado todas as pessoas mencionadas). Ao leitor caberá a tarefa de descobrir o que é verdade e o que é mentira”.
Foi prazeroso ler “Santa Evita”, oitavo lugar na lista dos 100 romances mais importantes escritos em língua espanhola nos últimos 25 anos. E o autor abordou o tema com uma coragem extraordinária.
A respeito, Gabriel García Márquez sintetizou na última capa do livro:
“Quando Eva morreu, em 1952, seu marido, o general Juan Domingo Perón, ordenou que seu corpo fosse embalsamado e exposto à nação argentina numa redoma de vidro. Três anos depois, quando o ditador caiu, o cadáver de Evita tornou-se um fardo pesado demais para qualquer regime.
Assim teve início uma das mais insólitas peregrinações de que se tem notícia. Seqüestrado pelo Serviço de Inteligência do Exército, o cadáver vagou semanas pelas ruas de Buenos Aires, estacionou durante meses nos fundos de um cinema, prestou-se a todo tipo de paixões no sótão da casa de um capitão desmiolado até reaparecer, 16 anos mais tarde, no Velho Continente.
Enfim, o romance que eu sempre quis ler”, finaliza García Márquez.
E você, ainda não leu?
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