Sobre censuras e tolices
Enviado em 14 de Novembro de 2007
Publicado por José Emanuel Gomes de Mattos | Enviar por e-mail
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O livro “Memórias de minhas putas tristes”, de Gabriel García Márquez, acaba de ser banido com bastante estardalhaço pelo governo do Irã, um mês depois de ter sido publicado.
Alegação: é “imoral”.
O Nobel de Literatura colombiano narra a história de um velho jornalista que decide comemorar seus 90 anos com uma jovem virgem é um hino de louvor à vida e ao amor. “Um conto de fadas sentimental, implacável, sábio e irônico”, sintetiza a resenha.
"No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também moral é uma questão de tempo, dizia com sorriso maligno, você vai ver."
Este é o trecho inicial do romance escrito por García Marques em 2004.
Ao ler a notícia lembrei do que ocorreu durante o relançamento de “Claudinha no ano da loucura”, do grego Alexandros Evremidis, em São Paulo. Uma senhora pegou o livro, leu alguns trechos e o jogou de volta no balcão, exaltada:
- Isso é pedofilia!
Trata-se da paixão de um homem maduro por uma ninfeta nos loucos anos 70, no Rio de Janeiro. Carlos Heitor Cony escreveu: “A crítica acusou em Evremidis a fixação no sexo, naquilo que poderia parecer um gênero pornô. Se assim é, viva a pornografia! Tanto em ‘Melissa’ como principalmente em ‘Adeus Grécia’ (livros anteriores do autor) corre bastante esperma – como na vida real”.
Li ‘Memórias’ e ‘Claudinha’ esse ano. Emocionei-me com as 127 páginas do primeiro romance que Gabriel García Márquez publicou depois de dez anos. Uma pequena obra-prima do Prêmio Nobel de Literatura de 1982.
Sobre o livro de Alexandros Evremidis, comentei: “Encantou-me a naturalidade com que escreve. É como alguém sentado ao teu lado, contando uma história tão fascinante que você não sente o tempo passar”.
Proibir “Memórias de minhas putas tristes” e considerar como pedofilia “Claudinha no ano da loucura” não é censura.
É tolice.
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