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 Disparada nas pesquisas, Manuela ainda pode ter apoio do PT

Ao despontar para a política nacional em 2006, a jovem gaúcha Manuela d’Ávila (PCdoB-RS) provocou arrepios no Congresso em razão de seus atributos físicos. Hoje, em seu segundo mandato, os encantos de Manu transcendem a beleza e o sorriso fácil que lhe renderam o título de musa do Congresso. A performance no Legislativo a credenciou para o lançamento de sua candidatura a prefeita de Porto Alegre. E, a seis meses das eleições, as pesquisas eleitorais comprovam: ela é muito competente em angariar votos e tem chances de derrotar um dos prefeitos mais populares do País.

Segundo consulta do Ibope, a pré-candidata do PCdoB está à frente na disputa com 37%, seguida pelo atual prefeito e candidato à reeleição, José Fortunati (PDT), que aparece em segundo, com 28% ou 29%, dependendo do cenário. Se a parlamentar do PCdoB confirmar seu favoritismo nas urnas, ela alcançará um feito inédito. Será a primeira mulher a administrar a capital do Estado. Manuela tenta explicar a receita do sucesso: “Não sou uma oposição radicaloide”, afirma a comunista, que, em 2010, foi a campeã nacional de votos para a Câmara Federal.

O excelente desempenho na pesquisa do Ibope não decorre apenas do fato de Manuela aparecer bem à frente de seus concorrentes. O que também chama a atenção é que o prefeito Fortunati possui uma administração aprovada por 72% da população e classificada de ótima/boa por 55% dos entrevistados. Ou seja, a comunista não só derrota o atual prefeito, como abre larga vantagem sobre um adversário muito bem avaliado pela população.

Para o cientista político André Marrenco, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, outra curiosidade da pré-campanha em Porto Alegre, que confirma tendências anteriores, é o declínio eleitoral do PT na capital gaúcha. A legenda de Lula, que já administrou a cidade por 16 anos consecutivos e governa atualmente o Estado com Tarso Genro, aparece na enquete com apenas 2% das intenções de voto. “Depois de quatro administrações, o PT ficou sem uma nova agenda”, avalia Marrenco.

Nos bastidores da campanha petista, a sangria tem explicação: o sectarismo político. Em quase três décadas de eleições, o PT de Porto Alegre nunca abriu espaço em suas chapas majoritárias para outras legendas. Na direção nacional do PT, espera-se ainda que Lula convença seus correligionários a desistir da aventura da candidatura própria em Porto Alegre. Os petistas locais resistem a isso. Manuela, que hoje personifica os anseios de setores da esquerda da cidade, e seria a destinatária da maior parte desses votos, torce para esse desfecho. Assim, ela ficaria ainda mais perto de outra grande conquista eleitoral.

Pesquisa Ibope/ZH, divulgada nesse domingo de Páscoa, 8 de abril, confirma e até aumenta a convicção que ficou depois que o Correio do Povo publicou a sua na semana passada: Porto Alegre quer mudar.

Manuela d’Ávila (PCdoB) lidera a pesquisa espontânea: 20%. O atual prefeito, José Fortunati (PDT), com toda mídia a favor, está com 16%.

Segundo o Ibope, na pesquisa estimulada, Manuela aumentou a vantagem sobre Fortunati: 37 x 28. Acima da margem de erro.

Em um eventual segundo turno entre Manuela e Fortunati, o Ibope apontou 43 x 38 para Manuela d’Ávila. Com menos indecisos.

Há muito Manuela deixou de ser ‘fenômeno’ eleitoral. Os 482.590 votos de 2010 foram resultado de sua atividade em Brasília. Só o PT não viu.

Manuela d’Ávila faz todos os fins-de-semana roteiros pelas vilas e subúrbios de Porto Alegre. Vai ao encontro do povão. E a pesquisa também aponta a sua ampla vantagem no eleitorado da classe média.

Curioso: pessoas consideradas ‘animais políticos’, não percebem tamanha evidência. Fortunati não tem carisma, nem mesmo densidade eleitoral.

Sintoma visível de que a atual gestão se esgotou é que subiu a rejeição ao prefeito, que agora tem 9% contra 12% da deputada federal.

Fortunati pode se pintar de vermelho, mas é gremista. Manuela é colorada e a Copa de 2014 será no Beira-Rio. É tão certo que a torcida do Inter é majoritária em Porto Alegre quanto os rios que correm para o mar.

Quando a ‘inteligência’ de um candidato culpa as pesquisas eleitorais pelos maus resultados é porque a vaca está se avizinhando ao brejo…

A pesquisa ZH/Ibope dá razão à Tarso Genro, que queria o PT com Manuela d’Ávila no 1º turno e foi derrotado pela minoria barulhenta. Esse passo mal dado pode comprometer sua reeleição ao governo do Estado.

O PT tem todo o direito de concorrer à Prefeitura, mas não é boa praxe política deixar de retribuir quem ajudou a eleger Tarso Genro no 1º turno.

No ato pelos 90 anos do PCdoB, o presidente nacional Renato Rabelo disse: o partido é leal aos que são leais com ele. Mais claro impossível. Tarso estava lá e ouviu.

Em fevereiro de 1951, o governador Ernesto Dornelles, do PTB, trocou Ildo Meneguetti por Eliseu Paglioli na Prefeitura. Em novembro, Meneghetti derrotou Leonel Brizola nas urnas e voltou a ser prefeito de Porto Alegre.

Na época, o PTB tinha Getúlio Vargas na presidência da República e também governava o Estado. Mas mesmo assim Brizola perdeu.

Zero Hora especula que Ana Amélia apoia Manuela d’Ávila porque Fortunati votou em Rigotto. Mas o PT fez pior ao não retribuir agora o apoio dado por Manuela à Tarso em 2010. E 2014 é ali adiante.

Eleita prefeita ou não, Manuela d’Ávila terá papel decisivo na disputa ao governo estadual. Ana Amélia apóia Manu e concorre em 2014. Logo…

A idade mínima para presidente, governador e senador é de 35 anos. Manuela d’Ávila terá 33 em 2014. Prefeita ou não, seu apoio decidirá.

Também significa que votaremos em Manuela d’Ávila para o governo do Estado somente na eleição de 2018 quando ela estará com 37 anos.

Não será problema. A paciência é virtude dos fortes. Desesperar, jamais.

 

  Mark Zuckerberg, o bilionário mais jovem, ganhará US$ 1 em 2013

Ao pedir a abertura de capital do Facebook, seu fundador, Mark Zuckerberg, inovou ao enviar a carta abaixo, que reproduzo na íntegra:

“O Facebook não foi criado originalmente para ser uma companhia. Foi construído para atingir uma missão social – de fazer o mundo mais aberto e mais conectado. Nós achamos que é importante que todos que investem no Facebook entendam o que esta missão significa par nós, como nós tomamos decisões e porque fazemos as coisas que fazemos. Eu vou tentar discorrer sobre nossa abordagem nesta carta.

Somos inspirados por tecnologias que revolucionaram a maneira como as pessoas distribuem e consomem a informação. Sempre falamos sobre as invenções como a impressora e a televisão – que,  simplesmente por tornar a comunicação mais eficiente, levaram a uma completa transformação de muitas partes importantes da sociedade. Eles deram voz a mais pessoas. Elas encorajaram o progresso. Elas mudaram como a sociedade era organizada. Elas nos fizerem aproximar uns dos outros.

Hoje, nossa sociedade atingiu outro nível. Vivemos em um momento em que a maiora das pessoas do mundo tem acesso à internet por telefones celulares – a ferramenta básica necessária para começar a compartilhar com quem quiserem o que estão pensando, sentindo e fazendo. O Facebook pretende construir serviços que deem às pessoas o poder de compartilhar e ajudá-las, mais uma vez, a transformar nossas principais instituições e indústrias.
Há uma necessidade enorme e uma grande oportunidade para que todas as pessoas do mundo estejam conectadas, para dar a todos uma voz e ajudar a transformar a sociedade para o futuro. A quantidade de tecnologia e infraestrutura que precisa ser construída não tem precedentes, e acreditamos que este é o problema mais importante que podemos focar.
Esperamos fortalecer a forma como as pessoas se relacionam. Mesmo que a nossa missão soe grande, ela começa pequena – com a relação entre duas pessoas.
As relações pessoais são a unidade fundamental da nossa sociedade. Os relacionamentos são a forma como nós descobrimos novas ideias, compreendemos nosso mundo e, afinal, temos felicidade no longo prazo.
No Facebook, estamos construindo ferramentas para ajudar as pessoas a se conectarem com quem querem e compartilhar o que quiserem, e, fazendo isso, estamos ampliando a capacidade das pessoas de construir e manter relacionamentos.
Pessoas que compartilham mais – mesmo que apenas com seus amigos próximos ou familiares – criam uma cultura mais aberta e acabam tendo uma melhor compreensão da vida e perspectivas do que as outras. Acreditamos que isso cria um maior número de relações mais fortes entre as pessoas e que ajuda as pessoas a ficarem expostas a um número maior de perspectivas diferentes.
Ao ajudar as pessoas a formarem essas conexões, esperamos mudar a maneira como as pessoas espalham e consomem a informação. Nós acreditamos que a infraestrutura da informação do mundo deve ser como o gráfico social – uma rede construída de baixo para cima, ao invés do monolítica, que é a estrutura de cima para baixo que tem existido até hoje. Nós também acreditamos que dar às pessoas controle sobre o que elas compartilham é um princípio fundamental desta mudança.
Nós já ajudamos mais de 800 milhões de pessoas a mapear mais de 100 bilhões de conexões até o momento e nosso objetivo é ajudar a acelerar este processo.
Esperamos melhorar a forma como as pessoas se conectam com as empresas e com a economia.
Achamos que um mundo mais aberto e conectado vai ajudar a criar uma economia mais forte, com negócios mais autênticos, que criem melhores produtos e serviços.
Conforme as pessoas compartilhare mais, elas têm acesso a mais opiniões de pessoas em quem elas confiam sobre os produtos e serviços que usam. Isso facilita a descoberta de os melhores produtos e melhora a qualidade e eficiência de suas vidas.”

 

Há anos, “A Autobiografia de Eric Clapton” virou um dos livros de cabeceira. O texto abaixo foi publicado originalmente no meu blog em 17/2/2008. Nada mais atual republicá-lo, pois Clapton já está em Porto Alegre para o show do dia 6 de outubro.
Minha modesta homenagem ao mais importante guitarrista de todos os tempos é oferecer aos seus fãs o resumo desse livro fantástico.
A seguir, o texto integral, como foi publicado na época. Bom proveito:
Finalizei “Eric Clapton – A Autobiografia” (Editora Planeta, tradução de Lúcia Brito). No post “O homem que quase reuniu The Beatles” prometi escrever a respeito quando virasse a última página. Não cumpri. Meditei muito até concluir: é o melhor livro de auto-ajuda que já li.
Eric Clapton, um gênio musical é, antes de tudo, um sobrevivente. Conseguiu, depois de muitas recaídas, sufocar o alcoolismo e
abandonar as drogas que ceifaram tantas vidas, especialmente no meio artístico. Essa, a parte que me pegou pela garganta.
Clapton viveu mil vidas. Filho bastardo, cresceu pobre e revoltado ao descobrir sua condição. Aos 20 anos, viu graffitis serem espalhados nos muros de Londres: “Eric é Deus”, pela forma de tocar guitarra, quando os Beatles e Rolling Stones estavam no auge.
Sua trajetória está contada em minúcias no livro. Uma história tão inspiradora quanto os blues que executa. Não sabia por onde iniciar o post. Então lembrei do diagnóstico: “20% da população tem sensibilidade ao alcoolismo mas o indivíduo só sabe depois que se tornou doente”. Se a leitura servir para reflexão de uma só pessoa já terá valido a pena.
Com vocês, Eric Clapton e sua riquíssima lição de  vida:
“Em 1944, a exemplo de muitas outras cidades do sul da Inglaterra, Ripley viu-se inundada por tropas dos Estados Unidos e Canadá, e a certa altura Pat, com 15 anos, teve um rápido caso com Edward Fryer, aviador canadense estacionado nos arredores. Conheceram-se num baile em que ele tocou piano na banda. Acontece que ele era casado, de modo que, quando descobriu que estava grávida, ela teve que se virar sozinha.
Rose e Jack protegeram-na, e eu nasci em segredo no quarto dos fundos, no andar de cima da casa deles, em 30 de março de 1945. Assim que foi possível, quando eu tinha dois anos, Pat deixou Ripley e meus avós me criaram como filho. Fui batizado Eric, mas todos me chamavam de Ric. (Páginas 12 e 13)
As pessoas sempre dizem que lembram exatamente onde estavam no dia em que o presidente Kennedy foi assassinado.
Eu não, mas lembro de ter ido para o pátio da escola no dia em que Buddy Holly morreu, e da sensação que havia lá. O lugar parecia um cemitério, e ninguém conseguia falar, tamanho o choque.
De todos os heróis musicais da época, ele era o mais acessível, e era verdadeiro. Era evidentemente um guitarrista de verdade, e acima de tudo, usava óculos. Era um de nós. O efeito de sua morte foi espantoso. Depois disso, alguns dizem que a música morreu. Para mim ela pareceu escancarar-se. (Página 30)
Eu achava que havia algo de outro mundo na cultura da bebida, e que ficar bêbado tornava-me membro de um clube estranho e misterioso. Também me dava coragem para tocar e, por fim, transar com uma garota. As noites de sábado sempre seguiam a mesma rotina em Kingston. Nos encontrávamos todos no Crown e eu tocava.
Um cara que estava sempre lá era Dutch Mills, um sujeito afável que tocava gaita de blues, e na maioria dos sábados fazíamos festa na casa dele. Foi quando de fato perdi a virgindade com uma garota chamada Lucy, mais velha do que eu, cujo namorado estava fora da cidade. Fiquei aterrorizado e sem jeito, ainda fico com esse asunto, mas ela me ajudou pacientemente… (Página 42)
Enquanto trabalhava para melhorar o modo de tocar, ia conhecendo mais e mais pessoas que tinham o mesmo respeito e reverência pela música que eu amava. Um sujeito fanático por blues era Clive Blewchamp – nos conhecemos em Hollyfield e  partimos juntos em uma fantástica viagem de descobertas. Foi Clive quem tocou o álbum de Robert Jonhson para mim pela primeira vez. (Página 44)
Casey Jones and the Engineers fizeram apenas uns 7 shows. Nesse meio tempo eu ainda trabalhava em construção para meu avô e circulava pela cena musical que então florescia. Alexis Korner tinha inaugurado seu próprio clube em um porão apertado. Giorgio Gomelsky tinha aberto o CrawDaddy Club no velho Station Hotel, em Richmond, onde a banda residente nas noites de domingo era a recém lançada Rolling Stones. Mick, Keith e Brian tocavam onde conseguissem, no 51 Club de Ken Colyer, em Charing Cross Road, no Marquee e no Ealing Club. (Página 55)
Era uma vida incrível, e às vezes eu não acreditava que estivesse acontecendo. Uma noite, por exemplo, Mark Vernon, dono da
gravadora Blue Horizon, pediu-me para ir a um estúdio trabalhar em uma sessão, e me vi tocando com Muddy Waters e Otis Spann, dois de meus heróis eternos.
Fiquei absolutamente aterrorizado, não por achar que não tivesse condições em termos musicais. Eu simplesmente não sabia como me comportar perto daqueles caras. Eram incríveis. E lá estava eu, um garoto branco magrela. Eu estava no paraíso, e eles pareciam bem felizes com o que eu fiz.
A essa altura as pessoas começaram a falar de mim como se eu fosse algum tipo de gênio, e ouvi dizer que alguém tinha escrito “Clapton é Deus” na parede da estação do metrô em Islington. Então aquilo começou a pipocar por toda Londres, como graffiti.
Um visitante habitual era George Harrison, que eu conhecia desde os Yardbirds. Ele costumava dar uma passada vindo de seu escritório em Savile Row a caminho de casa, um bangalô em Esher, e com freqüência trazia acetatos dos discos em que os Beatles estavam trabalhando.
Um dia, no começo de setembro, George me levou até os Abbey Road Studios, onde estava gravando. Quando chegamos, ele falou que iam gravar uma de suas canções e me pediu para tocar guitarra. Fiquei bastante surpreso e considerei uma coisa engraçada de se pedir, visto que ele era o guitarrista dos Beatles e sempre havia feito um belo trabalho nos discos.
Também fiquei bastante lisonjeado, pensando que não havia muita gente que fosse convidada para tocar em um disco dos Beatles. Eu nem havia levado a minha guitarra, de modo que peguei a dele emprestado.
Minha análise da situação foi que John e Paul faziam pouco das contribuições de George e Ringo para o grupo. George apresentava canções em cada projeto apenas para vê-las empurradas para o segundo plano. Creio que ele sentiu que nossa amizade poderia dar-lhe algum apoio e que ter-me ali para tocar poderia estabilizar sua posição e quem sabe até granjear-lhe algum respeito.
Fiquei um pouco nervoso porque John e Paul eram muito seguros de si, e eu era um forasteiro, mas foi tudo bem. A canção era “While My Guitar Gently Weeps”. Fizemos um take e foi fantástico. John e Paul estavam muitíssimo desinteressados, mas vi que George ficou feliz, pois ouviu-a repetidas vezes na sala de controle. Senti como se tivesse sido introduzido no santuário deles. (Página 121)
Nesse período eu estava vendo George Harrison cada vez mais, especialmente tendo em vista que agora éramos praticamente vizinhos. George e sua mulher Pattie viviam em uma propriedade residencial em Esher, a cerca de meia hora de carro, um bangalô espaçoso chamado Kinfauns. Começamos a andar bastante juntos. Às vezes ele e Pattie vinham a Hurtwood me mostrar um carro novo ou jantar e ouvir música.
Foi nos primeiros tempos de Hurtwood que George escreveu uma de suas mais belas canções, “Here Comes the Sun”. Era uma linda manhã de primavera, e estávamos sentados no alto de uma grande campina nos fundos do jardim. Estávamos com nossas guitarras, apenas dedilhando, quando ele começou a cantar “de da de de, it’s been a long cold lonely winter”, e pouco a pouco a elaborou, até a hora do almoço. (Página 127)
Dessa vez eu não tinha nenhum plano de ação. Estávamos apenas curtindo tocar, nos drogar e escrever canções. Harrison era um visitante assíduo. Havia se mudado há pouco para uma vasta mansão em Herley chamada Friar Park, e suas visitas davam-me muitas oportunidades de flertar com Pattie. Uma noite telefonei para ela e contei a “verdade”. Que era ela quem eu realmente queria.
A despeito de seus protestos por ser casada com George e de dizer que o que eu estava sugerindo era impossível, ela concordou em que eu fosse lá para conversar. Fui de carro, falamos e bebemos uma garrafa de vinho, e acabamos nos beijando, e pela primeira vez senti que havia algum tipo de esperança. (Página 147)
Movido por minha obssessão por Pattie, estava escrevendo muito, e todas as canções que escrevi para o álbum dos Dominos são sobre ela e nosso relacionamento. ”Layla” foi a cancão-chave, uma tentativa consciente de falar com Pattie sobre o fato de que ela estava resistindo e não viria ficar comigo. “O que você vai fazer quando ficar solitária?”
Ao longo dos meses seguintes continuei tentando cegamente persuadir Pattie a deixar George e vir morar comigo, mas não deu em nada. Até que um dia, depois de outra sessão de apelos infrutíferos, falei que, se não a tivesse, começaria a usar heroína em tempo integral.
Na verdade, é claro que já vinha usando quase que em tempo integral há algum tempo. Ela sorriu tristemente para mim, e eu soube que o jogo estava acabado. Exceto por um breve encontro no aeroporto de Londres, aquela foi a última vez que a vim em vários anos. (Páginas 151 a 155)
Durante todo o tempo em que usei heroína, pensei que soubesse exatamente o que estava fazendo. Não era uma vítima indefesa de jeito nenhum. Fazia aquilo principalmente porque gostava do barato, mas, pensando bem, em parte também para esquecer a dor do meu amor por Pattie e pela morte de meu avô. Também pensei que estivesse endossando o estilo de vida rock’n’roll.
Eu curtia a vida de grandes músicos de jazz como Charlie Parker e Ray Charles, e bluesmen como Robert Johnson, e tinha uma noção romântica de viver o tipo de vida que os havia levado a criar sua música. Também queria provar que podia fazê-lo e sair vivo. (Página 160)
No verão de 1971, a mais de um ano de meu exílio auto-imposto, George telefonou um dia para perguntar se eu iria a Nova York tocar em um show que ele estava organizando para o começo de agosto no Madison Square Garden para angariar dinheiro para as vítimas da fome em Bangladesh. Ele sabia muito bem do meu problema com drogas e deve ter visto aquilo como alguma espécie de missão de resgate.
Uma das poucas pessoas que vi nessa época foi Pete Townshend, que, durante um raro período em que eu queria trabalhar, pedi para vir me ajudar a acabar algumas faixas que eu havia gravado com Derek and the Dominos. Entretanto, quando ele chegou, eu havia perdido o interesse no projeto e, em um esforço para explicar minha total inércia, confessei a ele que estava com um problema. Fiquei horrorizado quando ele disse que já sabia há algum tempo. (Página 164)
Olhando agora, honestamente acredito que Meg e George fizeram o melhor que podiam com o que tinham. Mas não era o bastante. Porque, apesar de todo o bem que possam ter feito tirando-me da heroína, deixar-me à solta sem qualquer cuidado posterior foi uma ignorância, e algo perigoso. Simplesmente troquei uma substância de abuso por outra. (Página 168)
Um dia, enquanto estava na fazenda, recebi telefonema de Pete Townshend perguntado se gostaria de fazer uma ponta na versão para cinema de “Tommy”, rodado nos Pinewwod Studios. Ele queria que eu tocasse uma velha canção de Sonny Boy Williamson, “Eyesight to the Blind”, fazendo o papel de pregador de uma igreja que cultuava Marilyn Monroe. Embora eu achasse que soasse como um monte de baboseiras, não resisti à idéia de tentar, de voltar ao trabalho de tocar e cantar uma canção e gravar uma faixa. Mandaram me buscar na fazenda e me levar para passar o dia no estúdio. Foi uma experiência surreal, pois passei o dia enchendo a cara com Keith Moon, e vê-lo viajando a toda me fez sentir que não tinha absolutamente nenhum problema. (Página 178)
Uma bebedeira pós-psicodélica pareceu levar de roldão todo mundo do setor de entretenimento no início da década de 1970. Para você estar no palco, era quase esperado que estivesse bêbado. Lembro de fazer um show inteiro deitado no palco, com o microfone deitado atrás de mim e ninguém sequer pestanejou. Tampouco vieram muitas reclamações, provavelmente porque a platéia estava tão bêbada quanto eu.
Claro que havia umas poucas luzes cintilantes na estrada naquele tempo, artistas de elevados padrões éticos e profissionais, como Stevie Wonder, Ray Charles e B.B.King. E, se eu tivesse tido a coragem ou clareza mental de entender o exemplo que estavam dando, talvez tivesse começado a dar jeito em meu inabalável declínio. Mas estamos falando de alcoolismo, e eu já estava em profunda negação sobre o rumo que minha vida estava tomando. (Página 187)
Quando a turnê acabou, Tom e Roger pensaram que seria bom, devido ao sucesso de “I Shot the Sheriff”, rumar para o Caribe para conferir o lance do reggae. Eu não conseguia acompanhar o consumo de ganja deles, que era maciço. Se eu tentasse fumar tanto ou com tanta freqüência, ou teria apagado, ou começaria a ter alucinações.
Fizemos duas canções com Pete Tosh, que parecia estar inconsciente boa parte do tempo, atirado em uma cadeira. Então, quando gravávamos a faixa, ele levantava e tocava seu wah-wah, uma marca registrada do reggae, de modo brilhante, mas voltava para o transe tão logo acabávamos. (Páginas 194 e 195)
A banda consistia em Ronnie e eu, Charlie Hart no violino, Bruce Rowland na bateria e Brian Belashaw no baixo, e às vezes nos instalávamos no cais e tocávamos como artistas de rua, enquanto Nelly e Katy vestiam-se com trajes de can-can e dançavam. Foi um fiasco completo e com certeza não ganhávamos dinheiro algum, mas foi muito divertido.
Para mim isso teve a ver com beber e fugir de minhas responsabilidades de líder de banda, de modo que pudesse apenas andar por aí, e tocar por puro prazer, e a música refletiu isso. Era muito despretensiosa e basicamente acústica, e foi bem nesse espírito que a canção “Wonderful Tonight” foi escrita enquanto esperava Nell vestir-se para irmos jantar. Lembro de ter dito: “Veja, você está maravilhosa, ok? Por favor, não troque de roupa de novo.” Era uma situação doméstica. Desci de volta para a guitarra, e a letra veio rapidamente. Foi escrita em cerca de dez minutos, na verdade escrita em clima de raiva e frustração. (Página 207)
Fomos surpreendidos por uma batida na porta, e, quando Jamie abriu, havia dois caras agachados do lado de fora, apontando suas armas para a entrada. Alguém tinha me avistado na saliência e pensou que eu fosse algum tipo de assassino, e chamou a polícia. Quando perceberam que era um bêbado idiota fazendo papel de bobo, deixaram-me livre de má vontade, mas custou um bocado de conversa mole de Roger.
Infelizmente, tal comportamento pouco contribuiu para minha reputação, e quando, em novembro de 1978, Roger teve que cancelar um show em Fankfurt por problemas técnicos, a manchete de um dos grandes jornais nacionais gritou: “ERIC CLAPTON – BÊBADO DEMAIS PARA TOCAR”. (Página 210)
Por mais que eu achasse que amava Pattie, a verdade é que a única coisa sem a qual não conseguia viver era o álcool. Isso tornou minha necessidade ou capacidade de me comprometer com qualquer coisa, inclusive casamento, bastante inconsequente, e de qualquer modo era só questão de tempo antes de a norma “nenhuma mulher na estrada” ser invocada, e eu já estar de novo à solta e na correria.
George, Paul e Ringo também tocaram, faltando apenas John, que depois telefonou para dizer que também teria ido lá se tivesse
sabido. Jamais saberei como isso aconteceu; basta dizer que não tive muito a ver com os convites; mas perdeu-se uma grande oportunidade de reagrupar os Beatles para uma última apresentação.
Pattie cometeu o erro de ceder nosso quarto para Mick Jagger, que estava no início de seu romance com Jerry Hall, de modo que não pudemos ir para a cama, o que achei completamente ridículo. (Páginas 219 a 221)
Sou um cara do interior, e sempre me considerei um pescador razoavelmente bom, mas na margem oposta havia uma dupla de pescadores profissionais, de carpa com uma barraca e tudo bem arrumado e bonito. Provavelmente estavam ali há um dia ou dois, e ficaram me observando. Eu estava bêbado e mal havia conseguido montar meu equipamento quando perdi o equilíbrio e cai em cima de uma das varas, partindo-a no cabo. Os outros pescadores testemunharam a cena, e vi que desviaram o olhar, embaraçados.

Ali deu pra mim. O último vestígio de respeito próprio havia sido arrancado. Na minha cabeça, ser um bom pescador era o único ponto onde eu ainda tinha certa auto-estima. Guardei tudo de novo, coloquei no porta-malas do carro e dirigi para casa.
Peguei o telefone e liguei para Roger. Quando ele atendeu, eu apenas disse: “Você está certo. Estou encrencado. Preciso de ajuda”, e lembro que na mesma hora tive uma incrível sensação de alívio, misturada com terror, porque finalmente admiti para alguém o que vinha tentando negar para mim mesmo havia muito tempo. (Página 231)
No dia em que partimos, uma fria manhã de janeiro de 1982, Roger me pegou em Hurtwood e me levou para o Aeroporto de Gatwick. Eu estava um feixe de nervos. No vôo enxuguei toda a bebida do avião, de tão aterrorizado que estava porque nunca mais poderia beber de novo. Esse é o medo mais comum dos alcoólatras. Nos momentos mais baixos de minha vida, o único motivo para não cometer suicídio foi saber que não teria mais como beber se estivesse morto.
Depois de cerca de dez dias, comecei a gostar de estar lá. Olhava em volta e via algumas criaturas espantosas, às vezes verdadeiros azarados, que haviam estado em Hazelden quatro ou cinco vezes e tinham histórias muito piores que a minha para contar. Essas conversas me absorviam, e fui realmente estimulado por alguns dos indivíduos que estiveram lá, pessoas que estavam sóbrias há 20 anos ou mais. (Páginas 239 e 240)
Enquanto estávamos no Canadá, tocando no Maple Leaf Gardens, em Toronto, caí no fundo do poço, que por fim me levariam de volta a Hezelden. Andava bebendo pesadamente durante toda a turnê, e tinha sofrido um ou dois colapsos alcoólicos, como mini-ataques apopléticos. Nessa ocasião específica, comprei um pacote de seis cervejas que bebi muito rapidamente, e então dei de cara em um muro de desespero.
Foi como um momento de clareza, no qual vi a absoluta degradação de minha vida naquele momento. Comecei a escrever uma canção chamada “Holy Mother”, na qual pedia ajuda a uma fonte divina, um elemento feminino que não consegui sequer começar a identificar. Ainda amo essa canção, porque reconheço que veio do fundo de meu coração como um brado sincero de socorro.
O outono de 1985 encontrou-nos excursionando pela Itália. Estávamos fazendo show em Milão, e, depois de um deles, ele trouxe uma garota notavelmente atraente chamada Lori Del Santo. De fato, a energia entre nós era muito forte, do tipo que existe apenas quando você encontra alguém pela primeira vez. Apareci na porta de Lori, em Milão, surgido do nada, e disse que havia deixado Pattie e estava vindo morar com ela.
Por mais que desejasse dar o fora naquela ocasião, percebi que havia posto em marcha algo que estava fora de controle, especialmente por causa da conversa que havíamos tido sobre gravidez. Connor nasceu a 21 de agosto de 1986, no St. Marys Hospital, em Paddington. Lori retornou à Itália após o nascimento, e a ideia era que visitasse Conor e ela por alguns dias sempre que possível. (Páginas 267 a 277)
Um dia, encerrado no quarto do hotel, muito longe de casa, sem nada para pensar a não ser minha dor e miséria, entendi de repente que tinha que voltar a fazer tratamento. Pensei comigo mesmo: “Isso tem que parar”. Na verdade, fiz isso por Conor, pois pensei que não importava o tipo de ser humano que eu fosse, eu não suportaria estar perto dele daquele jeito. Não podia tolerar a ideia de que à medida que ele tivesse experiência de vida suficiente para formar uma imagem de mim, essa imagem fosse a do homem que eu era naquele momento.
Liguei para Roger e disse para fazer outra reserva em Halelden, e, a 21 de novembro de 1987, voltei ao tratamento. (Página 279)
Quando minha internação estava chegando ao fim, o pânico me atingiu, e percebi que de fato nada havia mudado em mim, e eu estava voltando ao mundo mais uma vez completamente desprotegido. O ruído em minha mente era ensurdecedor, e a bebida em meus pensamentos o tempo todo. Fiquei chocado ao perceber que estava em um centro de tratamento, um ambiente supostamente seguro, e em sério perigo. Fiquei aterrorizado, em completo desespero.
Naquele momento quase que por si mesmas, minhas pernas cederam, e caí de joelhos. Na privacidade de meu quarto, implorei por socorro. Eu não atinava com quem estava falando, sabia apenas que havia chegado ao meu limite, não me restava mais nada para lutar. Então lembrei do que tinha ouvido falar sobre rendição, algo que e pensei que jamais conseguiria rezar, que meu orgulho simplesmente não permitiria, mas entendi que sozinho eu não teria sucesso, por fim pedi socorro e, caindo de joelhos, me rendi.
Em poucos dias percebi que havia acontecido alguma coisa. Um ateísta provavelmente diria que foi apenas uma mudança de atitude, e em certa medida é verdade, mas foi muito mais que isso. Encontrei um lugar a que recorrer, um lugar que sempre soube que estava ali, mas que nunca realmente quis ou precisei acreditar.
Daquele dia em diante ate hoje, jamais deixei de rezar de manhã, de joelhos, pedindo ajuda, e à noite para expressar gratidão por minha vida e, acima de tudo, por minha sobriedade. Prefiro me ajoelhar porque sinto que preciso ser humilde quando rezo e, com meu ego, isso é o máximo que posso fazer. Se você está perguntando por que faço tudo isso, vou dizer… porque funciona, simples assim. Em todo esse tempo em que estou sóbrio, nenhuma única vez pensei seriamente em tomar um drinque ou usar alguma droga. (Página 281)
Não fugi de Conor, embora houvesse de início uma certa dose de medo envolvida em meu relacionamento com ele. Afinal de contas, eu era pai de meio expediente. À medida em que minha sobriedade cresceu, comecei a ficar mais confortável com ele e a realmente aguardar ansiosamente para vê-lo. Eu estava nesse astral quando, em março de 1991, me organizei para ver Connor em Nova York, onde Lori e seu novo namorado, Sylvio, planejavam comprar apartamento. No fim da tarde de 19 de março, fui ao Galleria, um edifício na West 57 Street onde eles estavam, pegar Conor para levá-lo ao circo em Long Island.
Foi a primeira vez que saí sozinho com ele, e tanto fiquei nervoso quanto empolgado. Aquilo me fez perceber pela primeira vez o que significava ter um filho e ser pai. Na manhã seguinte saí cedo da cama, e estava pronto para cruzar a cidade a pé do meu hotel, na Park com a 64 Street, para pegar Lori e Conor e levá-los ao Central Park Zoo, seguido de almoço.
Por volta das 11 da manhã o telefone tocou, e era Lori. Estava histérica, gritando que Conor estava morto. Pensei: “Isso é ridículo. Como pode estar morto?”, e fiz a mais tola das perguntas: “Tem certeza?”. E então ela contou que ele havia caído pela janela.
Falando com a polícia e os médicos, confirmei o que havia acontecido sem sequer ter que entrar no cômodo. A sala de estar principal tinha janelas que iam do chão ao teto em uma das laterais e podiam ser abertas para a limpeza. Porém, não havia grades na janela, visto que o prédio era um condomínio e fugia às leis normais de construção.
Naquela manhã, o faxineiro estava limpando as janelas e as havia deixado temporariamente abertas. Conor corria pelo apartamento brincando de esconde-esconde com a babá e, enquanto Lori estava distraída pelo zelador ao alertá-la sobre o perigo, Conor simplesmente correu pela sala, e direto janela afora.
A mais forte das canções era “Tears in Heaven”. Sua criação e desenvolvimento mantiveram-me vivo através do período mais negro de minha vida. Quando tento retroceder àquela época, recordar a terrível dormência na qual vivia, recuo de pavor. A canção lançada foi um tremendo sucesso, a única número 1 escrita por mim, pelo que me lembro. (Página 302)
Em viagens recentes à minha casa em Galleon Beach, em Antígua, eu ficara cada vez mais desiludido com o número de viciados e bêbados que surgiam, ou talvez simplesmente estivesse reparando mais neles. Confidenciei a Chris e Richard sobre o caso e ambos disseram: “Bem, por que você não leva o programa para Antígua?” Perguntei como faria isso, e Chris respondeu na hora: “Você tem dinheiro, construa um centro de tratamento”. Minha resposta imediata: “Bem, vou construir se você for para lá administrá-lo”.
Optar por ir em frente com o centro de tratamento foi uma das primeiras decisões que tomei sozinho, e a sensação foi ótima. Escolhi cem guitarras da minha coleção para vender, além de vários amplificadores e diversas correias Versace. As guitarras, na maioria Martins, Fendrs e Gibsons, eram todas instrumentos clássicos. A Christie’s havia montado um catálogo fantástico no qual era destacada a “carreira” de cada guitarra. Minha Fender “Tobacco Sunburst” Start de 1956, conhecida como Brownie e na qual toquei “Layla”, foi comprada por estonteantes 450 mil dólares. Foi um evento realmente extraordinário, arrecadando 4,452 milhões de dólares para a Crossroads Foundations, uma quantia além de qualquer sonho meu. Também aumentou enormemente a consciência sobre oque estávamos tentando fazer em Antígua. (Página 334)
No meio da turnê no Japão, durante uma longa temporada no Budokan, recebi a notícia de que George Harrison havia morrido de câncer no dia 29 de novembro (2001). Eu tinha acompanhado o estado de saúde através de um amigo comum muito chegado, Brian Roylance, que vinha passando cada vez mais tempo com ele à medida que sua saúde definhava.
Vi George pela última vez no final de 1999, logo depois daquele ataque brutal em Friar Park. Nós três sentamos na cozinha dele, enquanto George revivia a noite em que aquele maluco, Michael Abram, veio atrás dele com uma faca para matá-lo, crente que estava em “missão de Deus”.
Na primavera de 2002, Brian veio jantar e começamos a falar de George. Comentei que era triste não haver um memorial para George, ao menos em sentido musical, e Brian disse: “A não ser que você faça alguma coisa”. O programa foi uma obra de amor na qual me atirei. Tudo transcorreu bem e conseguimos agendar o Albert Hall para a noite de 29 de novembro, um ano depois da morte de George. A única dificuldade surgiu em relação a quem deveria cantar “Something”. No fim chegamos a um meio termo, e Paul McCartney e eu apresentamos “Something” em dueto. (Página 344)
Foi quando finalmente me separei de Blackie e da Gibson ES-335 vermelho-cereja, que eram minhas desde os Yardbirds. Foram as primeiras guitarras de verdade que tive, e na véspera do festival fui vê-las em exposição para dizer adeus. Foi difícil. Havíamos viajado muitos quilômetros. (Página 353)
Convidamos familiares mais próximos e um seleto grupo de amigos para participar da cerimônia de batismo de Julie, e, no primeiro dia de 2002, na Igreja de Santa Maria Madalena, em Ripley, batizamos nossa filha de seis meses. Os pais de Melia estavam presentes, minha tia Sylvia, madrinhas e padrinhos. Foi uma cerimônia simples, comovente e no final Chris anunciou: “Nesse ponto geralmente se faz uma oração de encerramento, mas os pais pediram uma coisa diferente”. E começou: “Meus queridos, estamos aqui reunidos hoje para unir este homem e esta mulher em matrimônio”. Dá para ouvir um alfinete caindo naquele prédio antigo, mas foi como se dois mil alfinetes caíssem. Foi fantástico.
Em casa foi um período de alegria doméstica para mim e Melia, que se tornou mais feliz ainda com a chegada da segunda filha, Ella Mae, nascida em 14 de janeiro de 2003. Dia 1º de fevereiro de 2005 nasceu minha quarta filha, Sophie. Nesse ano completei 60 anos e, para celebrar, Melia organizou uma tremenda festança em Banquetinh House de Shitehall. Convidamos todo mundo que eu conhecia, até membros da banda “Glands”, alguns dos quais não via há 40 anos. O ponto alto da noite foi escutar minha valente esposa fazer um discurso de improviso sobre mim, que me trouxe lágrimas nos olhos. (Página 356)
Gostava apenas de ficar sentado em uma cadeira de praia observando as crianças brincarem n’água, e olhando para o mar onde nosso lindo barco estava ancorado. Realmente era um sonho. (Página 362)
Os últimos dez anos foram os melhores de minha vida. Repletos de amor e de um profundo senso de satisfação, não devido ao que percebo ter realizado mas pelo que me foi concedido. Tenho uma família amorosa, um passado do qual não me envergonho e um futuro que promete ser pleno de amor e riso. Sinto-me realmente afortunado por ter condições de dizer isso, pois tenho plena consciência de que, para muita gente, a velhice representa o fim das coisas prazerosas, a investida gradual da fraqueza e da senilidade, e o arrependimento pela vida Insatisfatória. Talvez eu sinta eventualmente as garras do medo ao avistar meus anos finais, mas nesse momento estou muito feliz e me sinto assim boa parte do tempo.
Os músicos com quem tive a honra e o prazer de tocar tanto no palco quanto em estúdio ao longo dos anos são por demais inumeráveis para mencionar, mas todos foram inesquecíveis por um motivo ou outro. A música sempre vai achar um caminho até nós, com ou sem negócios, política, sexo, religião. A música sobrevive a tudo e, como Deus, está sempre presente. Não precisa de ajuda e não é obstruída. Ela sempre me encontrou e, com a benção de Deus, sempre haverá de me encontrar.”

Aí, chefia, que vida de sarjeta nos arrumaram.

Já pensou quanto tempo ainda vamos aturar?

Enquanto apodrece faça algo que valha a pena.

Corte assinatura do jornal, revista e tevê paga.

Mediocridade dispensa a sujeira por justificativa.

Seja menos inútil, não siga feito foca amestrada.

Solte pandorga, beije sem vergonha, liberte o bicho.

Troque o canal e assista um filme novo. Ou de novo.

Muquiranas: sugiro qualquer ganhador do Oscar.

Certamente vira capítulo dessa indigente novela.

Lambuze empanturrado em barras de chocolate.

E deixe o FODA-SE ligado com a sirene bem alta.

Extraído de “O LIVRO DOS DESATINOS”,  Ed. Vagabunda.

Qualquer idiota consegue ser jovem.

É preciso muito talento pra envelhecer.

 

 

 

 

Falcão e Emanuel durante treino do Inter no Beira Rio, 1974

Paulo Roberto Falcão, aos 20 anos, desafia seus críticos no Beira-Rio

A foto acima foi feita há 37 anos, no gramado do Estádio Beira-Rio. O treino recém havia terminado e Falcão batia bola, isolado, o que não era habitual.

Achei estranho e fui ao seu encontro. Na época, fazia a cobertura do time colorado para a Folha da Manhã, tarefa que dividia com Telmo Zanini, hoje na Rede Globo. O irrequieto matutino, então sob o comando de Ruy Carlos Ostermann sucedia a Folha da Tarde Esportiva, jornal de cor azul.

A Folha da Manhã, ao contrário, era vermelha. Na cor e nos textos, tanto que foi a última a resistir na queda de Salvador Allende, em setembro de 1973, ao manchetear que um grupo de militares defendia o presidente do Chile, o que nunca ocorreu. Pinochet tomou o poder depois de bombardear o Palácio de La Moneda, onde Allende preferiu sair morto a entregar o governo.

Naquela redação de mentes arejadas ocorreram episódios hilários. Como o dia em que Telmo Zanini levou Terezinha Morango, auto-intitulada ‘rainha da torcida colorada’, à redação, onde ela subiu em uma mesa e cantou, fato que não presenciei mas testemunhado por Afonso Licks e Vieira da Cunha.

Era uma equipe de jovens de textos brilhantes, como José Antônio Vieira da Cunha, Elmar Bones da Costa, Jefferson Barros, Arthur Monteiro, José Antônio Pinheiro Machado, Paulo de Tarso Riccordi, José Onofre, os críticos de cinema Luiz Carlos Merten e Tuio Becker, e o então presidente do sindicato dos jornalistas, João Borges de Souza. O Edgar Vasques nos fazia rir com suas charges contundentes. A ele se agregaram os talentosos Neltair Rebés Abreu, o Santiago, Ronaldo Westermann e José Guaraci Fraga.

O Esporte tinha um timaço: José Félix Valente (editor), João Carlos Ferreira da Silva, o Joca, Afonso Licks, Eugênio Bortolon, Cláudio Dienstmann, Mário Marcos de Souza, Luiz Rache Vitello, Paulo Gerson Antunes de Oliveira, Sérgio Roberto de Souza Moita, Lenora Vargas e Heloísa Knapp, o colunista Ivo Corrêa Pires e quatro setoristas para a cobertura da dupla Gre-Nal: Jodoé Souza e Sérgio Toniello acompanhavam o Grêmio; e no Inter, Telmo Zanini e eu, contratado por Antônio Britto em abril de 1974, a quem substitui quando saiu do Esporte para criar a Central do Interior da Caldas Junior. Britto, como se sabe, governou o Rio Grande do Sul de 1995 a 1998.

Nas editorias, só craques. A cobertura policial era feita por Erni Quaresma, Renato Pinto, Caco Barcellos, Licínio Azevedo, Omar de Barros Filho, o Matico, editados pelo Osmar Trindade, cujo olhar esverdeado estremecia as jovens repórteres e excelentes profissionais como Marina Wöedke, Letânia Mezeses, Imara Stalbaum, Maristela Bairros e Rosvita Saueressig.

Como permaneci na Folha da Manhã só seis meses – de abril a setembro de 1974 -, antes de aceitar o convite para integrar a redação do Hoje, o único vespertino que a RBS lançou (durou apenas nove meses – de outubro de 1974 a junho de 1975), não convivi com alguns ícones que iniciaram naquele matutino, como Gilberto Pauletti, Paulo Totti, José Antônio Severo, Nei Duclós, Caio Fernando Abreu e Luiz Fernando Veríssimo, entre outros.

Abri esse vasto parêntesis para registrar um período nostálgico, do qual alguns nem estão mais entre nós, como José Onofre, Sérgio Moita, Jefferson Barros, Ronaldo WestermannIvo Corrêa Pires, Luiz Vitello e Tuio Becker.

Agora, volto à foto acima, razão principal desse post. Como relatei no início, ao ver Falcão brincando com uma bola, sozinho, me aproximei. Fui direto:

- Algum problema?

Apontou os jornalistas que cercavam o técnico Rubens Minelli e desabafou a raiva de seus 20 anos contra críticas que havia recebido na última atuação:

- Esse pessoal não sabe nada de futebol. Eu entendo mais do que eles.

Na foto, ele olha para o grupo e tento descobrir a quem se referia, pois não citou ninguém e nem perguntei. Um fotógrafo da Zero Hora registrou o momento. Meses depois, quando retornei à RBS, me deu de presente. Até hoje não sei quem é o autor. Espero que agora, enfim, seja identificado.

Essa foto também é pretexto para contar uma história engraçada. Como nossos cabelos eram parecidos, tínhamos quase a mesma idade e altura, quando viajava com o Inter ouvia pedidos de autógrafos. Seguia em frente e ouvia resmungos de “mascarado”. Um dia contei ao Falcão. Ele, pragmático:

- Então dá o autógrafo, pô!

Na época, eu imitava direitinho a assinatura dele. Lembro que era um ‘P’ maiúsculo, emendado com ‘Falcão’. A partir daí, quem pediu o seu autógrafo, levou o ‘PFalcão’ na hora. Certa vez, o Inter jogou amistoso com o Guarani de Garibaldi. Depois, a imprensa almoçou na churrascaria de um torcedor. Não sabia que antes o Valtair Santos, setorista da Zero Hora, havia prometido para o dono que traria o Falcão junto. O proprietário ia e vinha com os melhores espetos, que me servia, deliciado. Tudo ia bem até que, no final, ele trouxe uma bandeira do Inter e pediu uma dedicatória de presente para seu filho. Minha sorte é que a conta estava alta e aquele bando de muquiranas ficou quieto enquanto assinei o ‘PFalcão’ na bandeira colorada.

Vida que segue. Fui repórter da Revista Placar em Porto Alegre, entre 1979 e 1981, em lugar de Divino Fonseca, que havia sido transferido para São Paulo. Foi exatamente o ano em que o Inter conquistou o único campeonato brasileiro invicto. Seu técnico era Ênio Andrade e o preparador físico, Gilberto Tim, ambos inesquecíveis, que só me chamavam de “Falcãozinho”.

Em 1980, testemunhei um dos momentos que Falcão gostaria de esquecer. No vestiário do Estádio Centenário, em Montevidéu, ele descalçava as chuteiras depois de sua última partida com o Inter, derrotado pelo Nacional por 1×0. Como o primeiro jogo havia sido 0×0, no Beira-Rio, ele perdera a chance de ser campeão da Libertadores. Já vendido para o Roma, disse:

- Vou para a Itália, mas volto para encerrar a minha carreira aqui.

Na hora, duvidei. – Quem vai para o mundo, não volta, lhe disse. Depois de se consagrar como “Rei de Roma”, onde atuou quatro anos, Falcão retornou, mas para jogar no São Paulo, onde conquistou o título paulista em 1985. Mesmo não tendo realizado seu sonho de pendurar as chuteiras no Beira-Rio, até hoje é considerado o melhor jogador da história do Internacional.

Sua passagem pela seleção brasileira é um capítulo à parte. Estive no jogo que marcou a sua estreia em competições oficiais, em fevereiro de 1976. Foi na vitória do Brasil sobre a Argentina, por 2×1, em pleno Monumental de Nunez, em Buenos Aires, válido pela Copa Roca, sob o comando do gaúcho Osvaldo Brandão. Seu futebol já pedia passagem como titular, mas em 1978, no auge da forma, deixou de disputar o Mundial da Argentina, preterito pelo militar Cláudio Coutinho, que preferiu levar o tosco Chicão. Poderia ter sido decisivo no empate de 0×0 contra a Argentina, em Mar del Plata, resultado que praticamente decidiu a eliminação do Brasil, que ficou fora da final por causa da ‘marmelada’ dos peruanos que levaram 6×0 dos donos da casa.

Em 1982, era titular absoluto da canarinho, com Telê Santana, e foi considerado um dos destaques no Mundial da Espanha. Marcou três gols, um deles contra a Itália, mas fomos eliminiados ao perder por 3×2 quando até o empate servia. E em 1986, Telê o levou ao México, mas já não estava no melhor de sua forma e atuou pouco, aos 32 anos. Foi reserva e só entrou nos dois primeiros jogos, tendo o desprazer de ver, no banco, o Brasil ser eliminado pela França, nos pênaltis, na segunda fase. Falcão, Zico e Sócrates fizeram parte de uma geração que encantou o mundo, mas nunca conquistaram uma Copa do Mundo para o Brasil. Uma imensa injustiça.

Sua carreira de técnico iniciou de forma estrondosa, em 1990, no comando da seleção brasileira. O presidente da CBF pretendia uma renovação com o objetivo de disputar com chance de vencer a Copa de 1994. Falcão acreditou, revelou caras novas. Porém, depois de pressões da imprensa pelo vice na Copa América, foi demitido por Ricardo Teixeira em 1991. Mas formou a base da seleção que conquistou o Tetra no Mundial dos EUA.

Depois de treinar o América do México, tornou-se técnico do Inter em 1993. Ficou em 5º lugar entre oito times de seu grupo, após 14 jogos, 5 vitórias, 4 empates e 5 derrotas e o Inter foi eliminado na primeira fase do Brasileirão. Em 1994, chegou a iniciar a temporada e venceu três amistosos até fevereiro, quando aceitou o convite para treinar a seleção japonesa e encerrou de forma melancólica a primeira passagem no comando do Inter.

Há dois anos, nos reencontramos. Editava a Revista VOTO e o entrevistei. Como pauta o fato de Porto Alegre ter sido escolhida para uma das sedes da Copa de 2014. Naquela tarde, sentado na cafeteria do Supermercado Zaffari do Menino Deus, Falcão revelou que seu sonho era voltar a treinar, de preferência um time. Tive a sensação de estar frente a um homem amadurecido, em busca de uma nova chance para mostrar que entende mais de futebol do que “eles”, como dissera à beira do gramado, em 1974.

Seu sonho foi realizado em 11/4, quando retornou ao Beira-Rio e revelou dois objetivos: conquistar títulos e permanecer o maior tempo possível como técnico do Inter, desafios que só alguém com muita personalidade seria capaz de propor. Bem característicos do histórico de Paulo Roberto Falcão.

Por tudo o que relatei, tenho certeza de que o futebol brasileiro ganhará muito com o retorno de Falcão ao comando técnico do Internacional. O folclórico centroavante Dario dizia: “Jogador deve ir na bola como quem vai num prato de comida”. Desta vez, Falcão vai treinar o Inter como quem recebe uma nova oportunidade da vida. Certamente não vai desperdiçá-la.

Meu desejo é que ele se realize. Como no último pedido feito pelo capitão John Miller (personagem de Tom Hanks) antes de morrer, após cumprir a missão de salvar a vida de um jovem no filme “O resgate do soldado Ryan”:

- Faça por merecer.

 

Por Flávio Alcaraz Gomes *

Flávio Alcaraz Gomes

Flávio Alcaraz Gomes morreu aos 83 anos

A velhice traz privilégios? – pergunta André Frossard. E responde: ilusão.

A velhice é um naufrágio – dizia o general de Gaulle, que rezava para o céu chamá-lo antes dos 80 anos, no que foi atendido. O único privilégio da idade é a relativa consideração que merece por parte dos jovens. A juventude é a portadora da esperança do mundo e, além disso, goza da vantagem considerável de se acreditar eterna. Entretanto, seu futuro é a terceira idade.

Já a velhice possui inconvenientes por demais conhecidos para serem enumerados. O maior é o egoísmo, acrescentado por uma fixação à vida, tanto mais forte quanto mais precária ela o é. A velhice, porém, traz a experiência e consolida o julgamento fundado sobre a experiência, simplificando o uso da razão que não mais se desorienta com as extravagâncias da imaginação. Pode-se considerar que são privilégios, e tão seguros que os jovens nãos os invejam.

Reprodução coluna Flavio Alcaraz Gomes. 001

* Publicado no Correio do Povo em 26/7/2001

EM TEMPO: Tomo a liberdade de acrescentar uma nota extraída da coluna do jornalista Wanderley Soares, publicada em “O Sul”, de 8/4/2010.

Homenagens

Por parte dos poderes públicos do RS, foram paupérrimas e desajeitadas as homenagens prestadas à memória do jornalista Flávio Alcaraz Gomes. Lembro de quando o morreu o torturador estatal Romeu Tuma, ilustres gaúchos referenciaram o abominável defunto como nada mais nada menos do que um irrepreensível senador da República. Em seu programa “Guerrilheiros da Notícia” muita gente que está no poder angariou votos.

Twitter 1

O ser humano é movido por paixões. Algumas podem nos levar a sermos virtuosos, mas há o risco de tomar conta de nossos sentidos e nos viciar.

Ao longo de uma vida bem atribulada, já padeci por causa do alcoolismo, tendo inclusive recorrido à clinica de recuperação, sem sucesso. Até ocorrer um milagre. Certa manhã, em novembro de 2005, ao olhar no espelho uma cara amarrotada de olhar perdido, tive pena de mim e disse mentalmente:

- Quer saber? Enchi o saco de beber!

E Pronto. Nunca mais bebi. Naquela biblioteca de livros adquiridos para enfrentar esse vício, não havia nenhuma fórmula onde constasse que se pode parar com o alcoolismo de maneira tão banal. Os manuais dos 12 passos dos Alcóolicos Anônimos orientam para que o adicto em recuperação evite frequentar amigos e ambientes onde o álcool esteja presente. Puá!

Lá é ensinado: o alcoolismo é uma doença incurável; você será portador dela por toda a vida. Por isso, “só por hoje não vou beber”. Que nada.

Desde então, frequento os mesmos ambientes, convivo com velhos amigos, que bebem com a mesma disposição de antes – os que ainda estão vivos. E eu nem dou bola. Tomo a minha água mineral natural, e sem gás, depois de saber que o gás na água pode prejudicar o organismo por reter alimentos.

Cigarro nunca consegui tragar. Baseado? Atualmente, até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso prega a descriminalização do uso da maconha.

Jogos de azar. Esse sim, foi o maior problema que enfrentei depois que parei de beber. Isolado em casa, retomei um vício que havia abandonado: apostar em cavalos. Dois amigos, jornalistas ligados ao turfe, Mário Borba Caminha e Roberto Couto Franco, já falecidos, ensinavam: “Prado é o lugar onde os cavalos correm e os burros apostam”. Prado é o mesmo que hipódromo.

Esse vício, numa época em que iniciava meu período de abstinência, custou muito caro, tanto que, mesmo tendo deixado de apostar há mais de três anos, ainda pago pelas consequências. Mas também consegui superá-lo.

Twitter 2

Todo o preâmbulo intimista acima serve para informar a razão desse blog estar abandonado desde o final de 2010. A Internet, a maior invenção da humanidade, por horizontalizar as comunicações, tem proporcionado alternativas cada vez mais atraentes. Nenhuma tão viciante como o Twitter.

Estou completamente apaixonado por esse filhote da Internet. Ligo o pc e, antes mesmo de olhar os e-mais, como fazia habitualmente, já me conecto ao Twitter. Nele, as informações transitam sem cerimônia, através das pessoas ou veículos de comunicação a quem seguimos por lívre escolha.

No início, cheguei a ter uma lista de dois mil tuiteiros. Mas para se interagir de verdade e dar a devida atenção, devemos seguir a quem tenha realmente algo a ver conosco. Senão, as mensagens circulam como o estouro de uma manada de búfalos. Elas passam e você nem toma conhecimento. Burrice.

Ainda sou principiante, tenho a preocupação de prencher 140 caracteres, limite de cada mensagem. Mas já percebo que o sucesso de público está com quem consegue transmitir seus pensamentos de forma bem mais sucinta, como um dos grandes frasistas do país, José Guaraci Fraga, o @F_R_A_G_A.

Agora, até que alguém invente um meio mais atraente, raramente postarei algum texto por aqui. Quem quiser me encontrar, vai ter que acessar o @Emanuelmattos, avatar onde passo o dia sendo estimulado por tanta gente interessante. Já fiz ótimas amizades e há espaço para encontros virtuais que até se materializam em relacionamentos de verdade. Não é um espetáculo!

Enfim, nada do que a Internet possibilitou até hoje reflete tanto a vida real como o Twitter. Aos que prestigiavam esse blog com suas visitas, as minhas desculpas. Deixei de ser uma das tantas pessoas que cuidavam de seus blogs como se fosse a própria casa. Me tornei um tuitteiro assumido e feliz.

Agora estou democraticamente misturado às pessoas de todas as idades e mundos, que interagem de forma instantânea. Barack Obama e Bin Laden ainda não se viram, mas certamente já mantêm contato. No Twitter, é claro.

Rá!

Twitter 3

Juremir Machado da Silva

Juremir autogafa “História regional da infâmia” na Feira do Livro/2010

Uma das amizades que mais me honra em quase 37 anos de atividade profissional é a de Juremir Machado da Silva, atualmente o principal multimídia do Correio do Povo e da Empresa Jornalística Caldas Júnior. Nossa relação foi cimentada no final dos anos 80, quando uma de minhas tarefas no Jornal Zero Hora era coordenar o “Caderno D”, o espaço cultural de ZH nas edições dominicais. Sua proposta era não apenas tratar assuntos culturais, mas servia para desafogar reportagens especiais que não tinham espaço na edição diária do jornal. Algumas das melhores matérias daquele período ficaram perpetuadas no extinto “Caderno D”, conforme podem testemunhar os grandes repórteres Carlos Wagner e Nilson Mariano.

Para tanto, volta e meia eu contrariava as ordens do então diretor de Redação, Lauro Schirmer, falecido ano passado. Ele havia determnado que nenhum assunto ocupasse mais de duas páginas. Mal sabem os felizardos repórteres quanto desgaste essa rebeldia me custou – e, talvez, uma das razões de ser demitido mesmo durante as férias, em janeiro de 1990. Tanto que ele sequer quis me comunicar a decisão e repassou a tarefa ao então editor-chefe Carlos Fehlberg, ex-assessor de imprensa do governo Médici, período da ditadura em que mais se torturou e matou e menos se informou.

Lauro Schirmer capa ZH

Homenagem de ZH na despedida de Lauro Schirmer – Foto de Luiz Ávila

O principal motivo, porém, foi outro: a direção do Grupo RBS não havia tolerado que eu, responsável pela edição de capa do jornal, tivesse sido um dos autores de um abaixo-assinado em favor da candidatura de Lula contra Collor em 1989, que pagamos para divulgar na própria ZH. Era a volta da eleição direta para presidente, 30 anos depois. Naquela época, a maioria fez questão de se posicionar, jornalista ou não. E a radicalização entre o patronato e trabalhadores foi tamanha que ao ser divulgado o resultado da boca de urna no segundo turno, com a vitória de Collor, a direção da RBS festejou e um deles, eufórico, perguntava como estava o “necrotério”, como apelidou o salão dos jornalistas que, em ampla maioria apoiou Lula. Naquele final de tarde podia ser ouvido o zumbido de um mosquito na Redação.

Pois foi o “Caderno D” que abriu espaço para as reportagens de Juremir. Mais tarde, foram alguns de seus primeiros livros editados. Cito dois deles: “A prisioneira do castelinho do Alto da Bronze” e “A noite dos cabarés”, prefaciada por Luiz Fernando Veríssimo, com quem viria a polemizar depois, fato que serviu de pretexto para Juremir ser demitido do Grupo RBS.

Juremir possui uma ilimitada sede pela produção literária e suas obras repercutem em todo o país (leia aqui “Juremir Machado da Silva: sarcástico analista do jornalismo provinciano)”, de Adriano de Almeida Gadbem. Exemplos: a biografia romanceada “Getúlio” e a obra mais recente, lançada na tradicional Feira do Livro de Porto Alegre deste ano – “História regional da infâmia” -, em que desconstrói alguns dos personagens incensados por biógrafos da Revolução Farropilha. Um livro imperdível, que recomendo aos interessados em conhecer o lado obscuro de uma guerra que perdemos, assinamos o empate e festejamos a vitória, como já ironizou o autor.

Pois a dedicatória diz: “Para Emanuel, um abraço ao padrinho e minha admiração. Juremir”. Não é gratidão apenas por ter dado espaço àquele repórter então desconhecido, setorista de futebol da editoria de Esportes de ZH, que confirma minha vocação para antever talentos quando despontam.

Emanuel, Marcia, David, Isani e Leandro. Prêmio ARI Correio. 1990 

A equipe que conquistou o único primeiro lugar em Reportagem Geral no Prêmio ARI na história do Correio do Povo: Emanuel Mattos (editor), Márcia Camarano, David Coimbra, Izani Mustafá e Leandro Marshall (repórteres)

Para confirmar, aí está David Coimbra, o mais conceituado multimiídia do Grupo RBS. Ele iniciou sua carreira jornalística ao meu lado, na equipe que lançou o Diário Catarinense, em 1986. Em 1990, integrou o time de repórteres quando assumi a editoria de Política do Correio do Povo. Naquele ano, o Correio conquistou seu único 1º lugar no Prêmio ARI de Reportagem Geral, com a cobertura da campanha eleitoral. Valor que dividi em partes iguais com David, Márcia Camarano, Izani Mustafá e Leandro Marshall.

Seus dois primeiros livros foram sugestões minhas: “800 noite de junho”, quando foi esmiuçado o assassinato do deputado José Antônio Daudt, e “A história dos Grenais”, que escreveu em parceria com o amigo Nico Noronha.

Feito esse parêntese, explico o fato de Juremir me chamar de padrinho: é que sou, de fato, padrinho de seu casamento com a Cláudia, que se mantém firme há 20 anos. Sempre se diz que atrás de um grande homem há uma grande mulher, o que justifica o sucesso em todas as empreitadas que Juremir abraça: afora escrever uma coluna diária no Correio do Povo, participa de programas na Rádio Guaíba e TV Guaíba/Record, integrantes do Grupo Record e ainda é o coordenador de mestrado na Famecos da PUC/RS.

Esse resgate serve de preâmbulo para dar o endosso à coluna que meu afilhado publicou na edição conjunta do Correio do Povo de 24 e 25 de dezembro, intitulada “Meus pedidos”. A destinatária é a futura presidente Dilma Roussseff. Sem mais, reproduzo o texto do Juremir na íntegra:

Dilma Mamãe Noel

Crédito: ARTE/PEDRO LOBO

Meus pedidos

Como todo mundo, apesar das minhas ressalvas ao mercantilismo do Bom Velhinho, eu também faço os meus pedidos de Natal. Só que, desta vez, mandarei a minha cartinha para uma mulher. Farei meus pedidos a Dilma Rousseff. Luiz Inácio já a chamou de "mãe do PAC". Não é de duvidar que fique conhecida como "mãe dos pobres". Imagino a direita esbravejando contra o que talvez venha a rotular de "neopopulismo feminino". Estou delirando. Mas os meus pedidos são verdadeiros. Não pedirei pouco. Pensando bem, também não é muito. Pedirei coerência. Não é para rir. Sim, eu acredito em Papai Noel, em coerência de político e na vida extraterrestre. Uma vez por ano.
O que espero da Dilma? Primeiro, que abra os arquivos da ditadura militar imposta ao Brasil em 1964. Não quero comissão da verdade, não desejo a revogação da lei da anistia, não defendo revanche ou vingança, não quero ver sangue jorrando nem cicatrizes se abrindo. Quero pesquisar. A Argentina julgou seus ditadores. Ainda nesta semana, o general golpista Jorge Videla sentou-se no banco dos réus e assumiu seus crimes sem arrependimento. Pegou prisão perpétua pelos seus feitos militares. Esse assunto repercutiu mais na Europa do que no Brasil. Os europeus esquecem com mais dificuldade. Se Dilma sentar em cima dos arquivos da ditadura, como Luiz Inácio fez, eu me sentirei muito decepcionado e julgarei que a esquerda tem mais a esconder do que a direita.
Meu segundo pedido à presidente é que não defenda ditaduras, nem de esquerda nem de direita, e coloque os direitos humanos acima dos interesses econômicos. Cuba é uma ditadura de esquerda. O Irã é uma ditadura de direita. Não é possível ficar afagando quem apedreja mulheres por "crime" de adultério ou proíbe cineasta de filmar para não receber críticas. É inaceitável andar de braços dados com quem coloca homossexual na cadeia pelo "crime hediondo" de preferir pessoas do mesmo sexo. É verdade que o mundo inteiro se rende aos interesses econômicos. Os Estados Unidos brigam com o Irã, mas andam de mãozinha com a Arábia Saudita. O Brasil pode ser diferente. Peço à presidente que favoreça a desconcentração da mídia, mas não tenha a tentação de controlar conteúdos, pois isso só tem um nome: censura.
Enfim, são pedidos humildes, sinceros, sem qualquer interesse escuso. Espero que a presidente os acolha com generosidade e decida fazer feliz este cidadão comum apaixonado pela verdade, por história, por justiça, pelo Brasil. Sei que a presidente não pode e não deve entrar metendo o pé na porta, ainda mais de um palácio. Não peço que abra os arquivos da ditadura na manhã seguinte à sua posse. Pode ser dois dias depois. Brincadeirinha! Pode ser mesmo até o final de 2011. Quem esperou tanto tempo, pode aguardar mais um ano. Faço meus pedidos à presidente Dilma por não ter a quem recorrer. Como cidadão comum, sinto-me, muitas vezes, abandonado, esquecido, vilipendiado, atirado num canto feito um sapato velho. Deixarei minha cartinha no Correio (do Povo). Sei que a presidente sempre passa por lá. Se me atender, serei o guri mais feliz do mundo. Feliz Natal, presidente Dilma.

JUREMIR MACHADO DA SILVA | juremir@correiodopovo.com.br

Diante dos aumentos escandalosos concedidos aos parlamentares federais e estaduais, o vídeo acima exibe uma reportagem que deveria fazer qualquer político brasileiro – com as devidas exceções – ter mais vergonha na cara.

Imagem de Amostra do You Tube

Um dos fatos mais impactantes que guardo na memória foi o estúpido assassinato de John Lennon, em 8 de dezembro de 1980. Lembro que estacionei o Chevette na rua lateral ao Estádio Alim Pedro, na Vila do IAPI, em Porto Alegre. Na época, nosso time de futebol, que durante o período das disputas amadoras se chamava Clube Atlético Palomares, no verão participava do campeonato praiano. Nos dias que antecediam a competição, havia treinos para entrosar o grupo. Todos trabalhavam e sò no final do expediente se podia treinar na semana. Os jogos eram realizados aos sábados e domingos nas praias do Litoral Norte do Rio Grande do Sul.
Naquele final de tarde, o locutor no rádio do carro anunciava com estardalhaço, como se fosse necessário, o assassinato covarde de Lennon. O impacto que a informação teve, mesmo para mim, jornalista havia seia anos, foi doloroso como um soco no estômago. Fiquei ali, paralisado, no banco, tentando absorver a morte do ídolo maior da minha juventude.
Lennon havia superado uma fase difícil, em que esteve envolvido com álcool e drogas e atravessava um momento de paz, ao lado da amada Yoko Ono e do filho Sean. Reflexo desse período foram as belíssimas músicas lançadas com grande sucesso como “Woman” e “Happy Xmas (War Is Over)”.

Mas a música que praticamente nenhuma rádio deixou de executar naquela trágica tarde de 1980, foi “Imagine”, considerada um hino insuperável pela paz. Lennon era um ícone, bem acima de Paul McCartney, a quem nunca perdoei o fato de ter sido o responsável pela separação dos Beatles, a banda mais importante de todos os tempos. Ele não aceitava a presença constante de Yoko Ono, a namorada de John,  diferente de seus padrões de Lorde.

O lunático Mark Chapman foi a bala que matou John Lennon. E o gatilho foi o intolerante Paul McCartney, o culpado pelo final dos Beatles dez anos antes.

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Carlos Montenegro quebrou a cara na entrevista à Veja de 26/8/2009

Fiquei praticamente um mês sem publicar nesse site maloqueiro, porém bem visitado. Aos amigos, fiquem tranquilos. Se o Zagalo, velha mala javanesa, ainda está por aí, imaginem esse container suburbano de Porto Alegre. Vão ter que me aturar, repito aqui a ameaça daquele vetusto rabugento.

É fato que as comunicações velozes, principalmente o Twitter, envelheceram algumas mídias de tal maneira que é consenso o fim dos blogs. Reitero que a Internet é a maior invenção da humanidade pela horizontalidade instantânea da comunicação. E ponto, diria Márcia Benetti em seu prestigiado “Patifaria”.

Com o final da campanha eleitoral de 2010, em que toda a torcida brasileira se viu envolvida, dei um tempo. Afinal, faltam seis meses para completar 60 anos, idade que, só de lembrar, me arrepio. Como cheguei até aqui?

Quem acompanhou meus passos erráticos ao longo de quase seis décadas sabe que cabe como uma luva a frase da escritora Clarice Lispector: “Escrevo-te em desordem, eu sei. Mas é como vivo. Eu só trabalho com achados e perdidos”. Ela foi repetida por Juliana Sawaia, do Ibope, em palestra intitulada ‘Many to Many: o fenômeno das redes sociais no Brasil’, no terceiro dia da Semana da Comunicação, da Associação Riograndense de Propaganda, conforme informação colhida no site Coletiva.net. (leia aqui)

A palestrante não diminuiu o conceito que tenho do Ibope depois que seu presidente, Carlos Montenegro, viu desmoralizada a profecia feita à Veja, edição 2127: “Lula não fará seu sucessor” (aqui a íntegra da entrevista).

Dei um tempo, repito. E continuarei assim. A idade nos faz ver quais são as prioridades que realmente contam. O conhecimento é uma delas. Busquei me adaptar às novas redes sociais, das quais duas delas praticamente ocupam o espaço livre dos devotos da Santa Internet: o Twitter e o Facebook.

Mas não deixei de lado meu livro de cabeceira: “A Arte da Prudência”, de Baltasar Gracián (1601/1658). Tenho recorrido, todas as vezes que posso, os seus riquíssimos ensinamentos. Um deles reflete meu atual momento:

Homem de paz, homem de muita vida. Para viver, deixar viver. Não só vivem os pacíficos, como também reinam. É mister ouvir e ver, porém calar. Dia sem pleito faz noite sonolenta. Viver muito e viver com gosto é viver por dois, e fruto da paz. Tudo tem aquele a quem nada se dá do que não lhe importa. Não há maior despropósito do que tomar tudo de propósito. Igual nescidade é ter coração aberto a quem não nos toca, e não deixar entrar peito adentro quem muito importa.”

E assim, graças a Internet, essas lições escritas há quase 500 anos são perpetudas. Felizes os que adquirem tal sabedoria antes do encontro com a mortal ceifadeira. É o que desejo, sinceramente, aos novos governantes.

Surfe em estado de choque com a morte do ídolo Andy Irons (leia a íntegra da reportagem publicada no site da Globoesporte.com – ou então clic aqui).

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andy Foi um choque para todos que acompanham um dos esportes mais espetaculares do planeta. No dia de Finados, faleceu em consequência de dengue hemorrágica (ainda sem diagnóstico oficial), o tricampeão mundial de surfe, Andy Irons, dos EUA. Segundo o ABC News, Andy teve complicações em decorrência de medicação. Natural do Havaí, Irons morreu em um hotel de Dallas, no Texas, ao retornar de Porto Rico, após desistir da etapa do Mundial.

Documentário em que Andy Irons fala da sua paixão pelo surfe

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A vibração de Andy Irons, que foi tricampeão mundial de 2002 a 2004

Dilma presidente

Dilma Rousseff foi eleita presidente com 55.752.529 votos (56,05%)

Às 19h55min de 31 de outubro de 2010, depois de 121 anos de tradição republicana, o Brasil elegeu a primeira mulher presidente de sua história. Com cerca de 91% dos votos apurados, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Dilma Rousseff, do PT, somou mais de 50 milhões de votos, abriu uma diferença impossível de ser revertida em favor de seu adversário José Serra, do PSDB, e garantiu a eleição para um mandato de quatro anos.

Mario Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa, também colunista de O Estado de S.Paulo: enfim o Nobel

Aos 74 anos, ainda em plena atividade docente (lecionava em Nova Iorque quando foi informado), o grande escritor peruano Mario Vargas Llosa, recebeu a notícia de que é Prêmio Nobel de Literatura de 2010. A repercussão será intensa, pelas mais variadas razões. Basta acessar seu site oficial (veja aqui) para ver a variedade dos temas abordados ao longo de sua carreira profícua. (veja ClubCultura.com). Llosa engrandece o Nobel.

Batismo de fogo

Li várias de suas obras, a começar por “Batismo de Fogo (La ciudad y los perros)”, que publicou com 27 anos e foi sucesso imediato. E jamais esqueço de um do livros que melhor relatou – apesar de bem romanceado – a um episódio que, à exceção de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, ficou quase perdido na história do Brasil:

A guerrra do fim do mundo

“A guerra do fim do mundo”, a respeito da rebelião de Canudos, quando os seguidores do messiânico religioso Antônio Conselheiro foram massacrados pelas tropas federais durante batalhas no interior árido e miserável do estado da Bahia, entre 1896 e 1897.

Vargas Llosa possui, sobretudo, faro do jornalista que é. Nos cruzamos na cobertura da Copa do Mundo de 1982, na Espanha. Seus relatos contêm uma incrível verossimilhança com o que se vê no dia-a-dia e resgata histórias em que nos sentimos participantes. E os faz como quem conversa, uma rara virtude, pelo menos para mim, que a considero a arte de escrever bem.

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Um de meus livros de cabeceira é “Cartas a um jovem escritor”, no qual Llosa responde às angústias e questinamentos de quem quer transformar a arte de escrever em um ofício. Naquela época, me comprometi com o diretor da Letras Brasileiras, Jakzam Kaiser, a transformar uma sinopse aprovada em livro. Os recados dele (e de Arthur Schopenhauer, em “Sobre o ofício de escritor) me influenciaram negativamente, confesso. Fiquei mais reflexivo pois tornei-me bem exigente e menos produtivo. Tanta informação qualificada me fez questionar se valia tentar. Dei um tempo. Mas está lá, no livro de cabeceira, a frase que lembro nesse dia fabuloso na vida de Vargas Llosa, um dos gigantes da literatura: “Toda vida merece um livro.”

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O David Coimbra, em seu blog hospedado no Clic.rbs, encontra uma das que considera principais razões para a estrondoso resultado da Manuela d’Ávila, reeleita para deputada federal pelo Rio Grande do Sul, com 482.590 votos. Reproduzo em homenagem ao Afonso Licks, um de seus ardorosos fãs.

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O sorriso da Manuela

O sorriso da Manuela, um largo sorriso de fatia de melancia, de cem dentes coruscantes, foi esse sorriso que seduziu meio milhão de pessoas.

Quinhentos mil encantados por um sorriso!

A Manuela vai dizer que sua votação foi derivada do trabalho dela, de seus posicionamentos, da sua atuação. Foi. Um pouco.

Mas o principal foi o seu sorriso.

Aprendam a força que tem um sorriso.

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Tiririca, the clown
 
O ato cívico de votar, exercido por milhões de brasileiros em 3 de outubro, resultou no que estava escrito não só nas estrelas, mas nesse site (Leia também “Perdeu, Tiririca! Marina Silva é o fenômeno eleitoral de 2010”).

O candidato a deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, arrebanhou 1.350.438 votos em São Paulo, algo inexplicável. Ainda mais que ele próprio desmoralizava a seriedade da eleição na campanha: “Sou candidato a deputado federal. E o que é que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto”.

Excentricidades patrocinadas volta e meia pela cosmopolita São Paulo. Como em 1960 ao eleger seu ex-governador, Jânio Quadros, para a Presidência, cargo ocupado apenas sete meses em 1961, quando renunciou, o que acelerou o golpe de estado imposto ao Brasil por 20 anos de ditadura militar.

Eis o que pode gerar a eleição de alguém despreparado. Mesmo que a maioria justifique como protesto contra a classe política, a democracia sofre retrocesso. Esses votos estimulam o trambique, como aliás ele mesmo fez, ao forjar uma declaração de que sabe ler e escrever, e que já geroudenúncia contra ele, aceita pelo Tribunal Regional Eleitoral paulista.

 A palhaçada ganhou espaço em todo o mundo, literalmente, como se pode ver na reprodução acima, enviada pelo Twitter do correspondente do programa da Globo News,“Manhattan Conection”, Pedro Andrade. “Clown elected to Brazil National Congress”, informa a rede de TV dos Estados Unidos, a NBC. Tudo leva a crer que a justiça eleitoral, diante de fraude comprovada, não diplome essa figura folclórica, para frustração – e também castigo – dos 1,350 milhão de votos que patrocinaram tamanha bizarria.

A respeito da eleição, deu a lógica prevista há algum tempo: segundo turno. E, embora Marina Silva fique com praticamente todos os méritos, não deve passar batido que o presidente Lula, com a agressividade exacerbada, contribuiu para que parte do eleitorado – principalmente entre os mais instruídos – optasse pela terceira via: Marina. Não foi por falta de aviso.

Para finalizar, selecionei as melhores capas dos mais de 50 jornais brasileiros que estão reproduzidas no site “Today’s Front Pages”.

O Dia RJ

Jornal O Dia, do Rio de Janeiro: criatividade ao informar o segundo turno

 Jornal da Tarde SP

Jornal da Tarde, de São Paulo fez uma capa-homenagem: Marina decide

 Jornal O Santa SC

A capa do Jornal de Santa Catarina foi destacada pela sua criatividade

De todas as capas, apenas uma foi citada porEduardo Tessler, diretor para o Brasil da Innovation Media Consulting, em seu site “Mídia Mundo”. Sob o título de “A boa sacada do dia seguinte”, destacou a forma como a manchete, ilustrada pela foto, resumiu o conjunto do dia 3 de outubro na cidade (lixo eleitoral), no Estado (eleição do governador) e no país (o 2º turno).

Depois do bombardeio de informações via TV e Internet, com o resultado das urnas em tempo real, o que fica para o cidadão depois das eleições? Essa foi a pegada do Jornal de Santa Catarina (Blumenau, SC). O lixo. A sujeira na cidade. Muito bom.”, elogiou o rigoroso Eduardo Tessler. Ponto para meu amigo Fabrício Cardoso, gaúcho radicado há anos em Blumenau e um dos responsáveis pela ideia. Ele a justificou como jornalista ético que é: “Eu me sentiria fracassado em dizer o que já havia sido dito”.

Parabéns, Fabrício.

Gravação ao vivo de “Primavera”, com o inesquecível Tim Maia

Foto de Leonardo Soares

Debae na TV Gazeta sem DIlma

Mesmo ausente, Dilma foi a mais citada no debate presidencial da TV Gazeta

O repórter Daniel Bramatti, da editoria de Política de O Estado de S.Paulo fez parte equipe do copyright do jornal Zero Hora em 1989, ao lado do Roger Lerina, da Chris Gutkowski,  do Marcelo Oliveira, do Saulo de la Rue, entre outros, quando exerci a atividade de secretário de redação desse diário de Porto Alegre. Na época, vivemos a expectativa da primeira eleição direta depois da ditadura e sofremos com a derrota de Lula para Collor.

Agora, graças a mais essa ferramenta espetacular que recém desbravo, o Twitter, nos encontramos novamente, assim como tantos bons amigos que a distância física e as oportunidades de trabalho haviam separado. O Twitter é outro espetacular meio de comunicação da Internet, essa sim, a maior invenção da humanidade, embora a Carol Borne afirme que é a roda. Só que a vizinha vai a pé pra casa e não sofre com o trânsito cada dia pior.

Volto ao Daniel Bramatti para informar que ele esteve na cobertura do debate da paulistana TV Gazeta, em que Dilma Rousseff não participou por uma razão mais do que justificada: foi curtir a condição da mais nova avó do Brasil, com o nascimento de Gabriel, 3,955kg, 50 cm e nota 10 no índice de saúde. A feliz mãe é a Procuradora do Trabalho Paula, filha única do casamento que Dilma teve com o ex-guerrilheiro, ex-deputado estadual e candidato a prefeito de Porto Alegre pelo PDT, Carlos Araújo. Na época, era a Dilma Araújo. O sobrenome Rousseff voltou a ser usado após a separação.

Mas como informa o repórter de O Estado de S.Paulo: “Ausente do debate, Dilma foi quem causou a maior repercussão no Twitter”. Depois de ler também essa matéria da Folha de S.Paulo sobre o debate que não houve (sem a Dilma não vale) me convenci que só um terremoto tira a presidência da República da mãe do PAC, ainda mais agora como avó do Gabriel. Mesmo antes da eleição, a vida da Dilma já rende um filme melhor do que o de Lula.

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