O time da final. De pé: Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar; Abaixo: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá e Zagalo (massagista Mário Américo)
Foi hoje, há exatos 50 anos, que esses heróis conquistaram a maior de todas as façanhas do futebol brasileiros em todos os tempos, ao golearem a Suécia por 5 x 2, no Raasunda Stadium, em Estocolmo, diante de 49.737 torcedores.
A ordem dos gols: Liedholm, aos 4, Vavá aos 10 e 32 min do primeiro tempo; Pelé aos 11, Zagalo aos 23, Simonsson aos 35 e Pelé aos 44 min do 2º tempo..
Comandados pelo técnico Vicente Feola, o Brasil teve também os seguintes jogadores: Castilho, Mauro, Zózimo, De Sordi, Oreco (o único gaúcho), Moacir, Dino Sani, Joel, Dida, Mazzola e Pepe. Preparador Físico: Paulo Amaral.
O mundo assistiu, deslumbrado, ao nascimento do mito Pelé, um menino de 17 anos (faria 18 em 23 de outubro), o maior jogador que já surgiu no Planeta.
Foi nesse dia que os brasileiros perderam o "Complexo de vira-latas" como escreveu Nelson Rodrigues, autor da crônica, publicada na Revista Manchete Esportiva, em 31 de maio de 1958, dias antes da Copa. Vale a pena recordá-la:
Complexo de vira-latas
por Nelson Rodrigues
"Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: - "O Brasil não vai nem se classificar!". E, aqui, eu pergunto: - não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?
Eis a verdade, amigos: - desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse "arrancou" como poderia dizer: - "extraiu" de nós o título como se fosse um dente.
E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: - é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: - o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: - se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.
Mas vejamos: - o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, "não". Mas eis a verdade: - eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: - sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: - não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.
A pura, a santa verdade é a seguinte: - qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: - temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de "complexo de vira-latas". Estou a imaginar o espanto do leitor: - "O que vem a ser isso?". Eu explico.
Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos "os maiores" é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: - e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: - porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.
Eu vos digo: - o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: - para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão."
Perdemos o ‘Complexo de vira-latas’ em 29 de junho de 1958 quando o Brasil conquistou a todos com seu futebol encantado. Depois disso já ganhamos as Copas de 1962, 1970, 1994 e 2002. Mas nenhuma teve a magia e provocou tanta emoção quanto o Mundial de 58 na Suécia.
E sempre será recordado com saudade por quem o viveu. Aos jovens que não tiveram essa oportunidade, foi como disse o presidente Lula na recente homenagem prestada, no Palácio do Planalto, aos autores desse feito histórico: para nós equivaleu a chegada do homem à Lua. *
Bellini com a Taça Jules Rimet
* Dedicado ao amigo Pedro Macedo, que completou dez anos em 29/6/1958.